Análise: O caso do avião de Trump e o dilema com a guerra do Irã
Crise dos Estados Unidos já não é sobre como pressionar o Irã, mas como transformar superioridade militar em uma saída política que possa ser apresentada como vitória
Há algo de simbólico na notícia de que Donald Trump precisou trocar secretamente de avião durante sua passagem pela Turquia. Diante de uma possível ameaça iraniana contra sua vida, o presidente norte-americano foi levado discretamente em um caminhão até outra aeronave, enquanto o Air Force One decolava vazio como parte da operação de despiste, segundo apuração da CNN.
A imagem resume o estágio atual da guerra. Os Estados Unidos continuam incomparavelmente mais fortes que o Irã, mas força e controle são coisas diferentes. Washington demonstrou capacidade de destruir, interceptar e punir. Ainda não demonstrou, no entanto, que sabe como encerrar o conflito em termos politicamente aceitáveis.
Esse talvez seja hoje o principal dilema de Trump. Entrar em uma guerra exige uma justificativa. Sair dela exige uma narrativa de vitória. E essa narrativa está cada vez mais difícil de construir.
A campanha produziu danos significativos à capacidade iraniana e reafirmou a superioridade militar norte-americana. Mas seus objetivos políticos se tornaram menos nítidos à medida que o conflito avançou. O programa nuclear, o Estreito de Ormuz, os mísseis iranianos e a própria sobrevivência do regime apareceram, em diferentes momentos, como parâmetros de sucesso. Quando os objetivos de uma guerra se multiplicam, também se multiplicam as condições necessárias para declarar que ela terminou.
A opinião pública já percebe esse impasse. Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada neste mês de agosto mostrou que apenas 35% dos norte-americanos apoiam a guerra. Metade acredita que o conflito produz mais caos no Oriente Médio e somente 17% esperam maior estabilidade.
Outro levantamento, da Marquette Law School, reproduzido pelo Semafor, mostrou que 88% dos entrevistados consideravam, em julho, que a campanha militar ainda não havia alcançado seus objetivos. Em abril, eram 78%.
Há ainda uma variável particularmente perigosa para Trump. O preço da gasolina. Pesquisa da Politico com a Public First, também destacada pelo Semafor, mostrou que 63% dos norte-americanos associavam a guerra à alta dos combustíveis. É por esse canal que Ormuz deixa de ser uma abstração geopolítica e entra diretamente no bolso do eleitor.
A política externa e o calendário eleitoral, portanto, começam a se encontrar. Às vésperas das Eleições de Meio de Mandato, Trump enfrenta uma guerra que contradiz parte da identidade política que construiu. Durante anos, apresentou-se como um presidente disposto a usar a força, mas avesso às chamadas guerras intermináveis. Agora precisa explicar por que uma demonstração de poder que deveria produzir resultados rápidos se transformou em conflito prolongado.
Não surpreende que, nos círculos próximos ao presidente, tenha surgido uma comparação desconfortável com Jimmy Carter, algo que já aparece em inúmeros veículos de cobertura da Casa Branca neste momento, nos Estados Unidos.
O paralelo histórico tem limites, mas a analogia política importa. A crise dos reféns, nos anos 1970, mostrou que não é necessário perder militarmente para perder politicamente. Uma crise externa pode se transformar em símbolo doméstico de impotência quando o eleitor deixa de enxergar um ponto de chegada.
Há também um limite material. Segundo o CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais), um dos mais importantes think tanks de Washington, a primeira fase do conflito custou entre US$ 34 bilhões e US$ 42 bilhões e consumiu estoques importantes de Tomahawks, Patriots, THAADs e outros sistemas.
O problema não é simplesmente ficar sem armas. É gastar hoje capacidades cuja reposição pode levar anos, justamente quando os Estados Unidos precisam preservar sua dissuasão no Indo-Pacífico. Cada míssil empregado no Oriente Médio também precisa ser pensado à luz de Taiwan e da China. Uma superpotência não calcula apenas se consegue continuar uma guerra. Calcula o custo de oportunidade de continuar nela.
Por isso, a pergunta relevante já não é se Trump pode voltar a escalar contra Teerã. Pode. Tampouco se os Estados Unidos conseguem impor novos danos ao Irã. Conseguem. A questão é o que acontece no dia seguinte.
O episódio do avião presidencial é revelador justamente por isso. Uma guerra iniciada para reduzir uma ameaça terminou por levar essa ameaça até a rotina de segurança do próprio presidente.
Há também uma ironia estratégica nessa imagem. Trump entrou no conflito tentando demonstrar que o poder norte-americano poderia impor limites ao Irã. Agora precisa encontrar uma fórmula para sair sem parecer que Teerã também conseguiu impor limites aos Estados Unidos.
Esse é o problema das guerras sem vitória decisiva. Em algum momento, vencer deixa de significar derrotar o adversário e passa a significar encontrar uma saída que possa ser chamada de vitória.



