Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Análise: O que falta para o regime do Irã cair?

Regimes autoritários não colapsam apenas porque deveriam acabar — eles caem quando protestos persistentes, oposição organizada e rachaduras internas convergem

Foto do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, é incendiada por um manifestante em frente à embaixada iraniana, em Londres  • Yui Mok/PA Images via Getty Images
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Existe uma ilusão recorrente entre observadores do Irã de 2026: acreditar que crises terminais produzem finais súbitos. Os protestos recentes reacenderam essa expectativa, e com razão.

Mas a verdade desconfortável é que regimes autoritários não caem apenas porque deveriam cair. Eles caem quando certas condições políticas convergem. E essas condições não necessariamente já se encontram alinhadas em Teerã.

O que torna o momento atual singular não é a intensidade da revolta, mas a natureza terminal da crise que a alimenta. Pela primeira vez, três colapsos distintos se sobrepõem: econômico, ambiental e de legitimidade.

Dados amplamente divulgados nos últimos dias indicam que um cidadão iraniano "médio" precisaria trabalhar cem anos para comprar um apartamento. Além disso, cidades inteiras enfrentam escassez de água. O PIB estagnou enquanto a inflação devora salários e o valor da moeda derreteu.

Não se trata de turbulência; é decomposição sistêmica. E ainda assim, o regime persiste.

É preciso considerar que movimentos de rua são impressionantes, mas talvez não sejam suficientes por si só.

A Revolução de 1979 não triunfou apenas pela coragem das massas, mas porque Ruhollah Khomeini ofereceu, naquele momento, algo que hoje inexiste: um projeto alternativo articulado e uma liderança capaz de unificar facções díspares.

A oposição iraniana contemporânea é um arquipélago de ilhas isoladas. Reza Pahlavi tem um sobrenome, não uma estrutura viável. Reformistas históricos envelheceram ou foram neutralizados.

A Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano (conhecido como MEK), grupo armado exilado que combate o regime desde os anos 1980, tem organização e militância, mas é visceralmente rejeitado por amplos setores da população iraniana, que o veem como sectário e descolado da realidade interna do país.

Revoluções não brotam espontaneamente da indignação. Elas exigem engenharia política, algo que nenhuma força oposicionista iraniana parece ter conseguido construir até agora.

Sem isso, protestos podem assombrar um regime (e escandalizar o mundo), mas não necessariamente o derrubam.

Fissuras existem, é claro: o Parlamento iraniano recentemente rejeitou o orçamento, o presidente admitiu estar “travado”, porta-vozes reconhecem a legitimidade das queixas populares. Mas nada disso importa enquanto a Guarda Revolucionária permanecer coesa.

Regimes como o do Irã não desmoronam porque perdem popularidade ou porque a economia entra em colapso. Eles caem quando os homens armados se recusam a continuar atirando em nome de um governo ou de um ideal. Essa recusa ainda não se materializou e enquanto não vier, a repressão seguirá viável, inclusive.

Há quem fantasie que bombardeios externos finalizariam o trabalho dos manifestantes. A realidade histórica sugere o contrário. Ataques militares de potências estrangeiras costumam ser oxigênio para regimes autoritários sob pressão.

Eles transformam lutas por dignidade em questões de soberania nacional, forçando populações a escolher entre opressores locais e agressores distantes.

A resposta honesta sobre a queda do regime exige abandonar certezas confortáveis.

Fazendo eco ao que disseram colegas especializados no ramo, como Nate Swanson, do Atlantic Council e outros, pelo menos três elementos precisam se alinhar para a queda do regime teocrático no Irã:

  1. protestos persistentes em larga escala,
  2. oposição minimamente organizada com liderança reconhecida, e
  3. rachaduras profundas que venham de dentro para fora do governo, passando necessariamente por quem controla o aparato de segurança.

Até o presente momento, apenas o primeiro deles está claramente dado, podendo, inclusive, ser sufocado pela violência estatal.

O que podemos afirmar é que o Irã se tornou inabitável para a maioria de seus cidadãos, que o regime perdeu qualquer narrativa mobilizadora que não seja o medo, e que o tempo trabalha contra a República Islâmica.

Mas entre a erosão lenta e o colapso súbito há um abismo preenchido por contingências imprevisíveis.

Regimes moribundos podem agonizar por décadas. A União Soviética parecia eterna até deixar de existir. A Alemanha Oriental pareceu inabalável até que os muros caíram literalmente. Mas nenhum desses colapsos foi automático.

Todos dependeram de conjunturas específicas que se recusam a ser replicadas sob encomenda. O Irã está à beira do precipício. Isso é um fato. Mas estar à beira, não significa necessariamente cair de um dia para o outro.

E aqueles que esperam pelo fim imediato do regime devem entender que a diferença entre esses dois estados pode durar anos, custar milhares de vidas, e não oferecer garantias de que o que vier depois será necessariamente melhor.