Política e religião: como funciona a estrutura de poder no Irã
Alexandre Pires, no Live CNN, explica o sistema teocrático iraniano, onde o líder supremo religioso está acima da estrutura republicana convencional
O Irã possui uma estrutura de poder singular, dividida em duas camadas distintas: uma republicana convencional e outra religiosa teocrática que se sobrepõe à primeira. Alexandre Pires, professor de Relações Internacionais do Ibmec, explicou em entrevista ao Live CNN como funciona esse sistema político-religioso que concentra a autoridade final nas mãos de uma liderança religiosa.
"Existe uma estrutura que é a república, igual a qualquer outra, com executivo, legislativo e judiciário, além das forças armadas. Essa é a estrutura básica", esclareceu Alexandre Pires. "Acima dessa estrutura existe a revolução. E essa é uma revolução religiosa, teocrática".
Segundo o professor, a camada teocrática é composta pelo líder supremo (atualmente o Ali Khamenei), o Conselho dos Guardiães e a Guarda Revolucionária. Essa estrutura religiosa tem poder de veto e controle sobre todas as decisões da república, incluindo as do presidente, do parlamento e do judiciário. "O líder religioso sempre foi o líder político, o guerreiro. Isso desde os califados, todos esses nomes que nós conhecemos, são figuras que detêm as duas funções", destacou.
A influência da religião no sistema jurídico
O sistema judiciário iraniano, embora formalmente independente, opera sob os preceitos religiosos. "Nós temos que lembrar que a constituição tem uma dimensão religiosa e a legislação acaba por seguir, no aspecto da aplicação da lei, o que nós chamamos de xaria", explicou Pires.
O professor enfatizou que o Alcorão não é apenas um livro religioso no Irã, mas parte fundamental da legislação. "Regula, inclusive, a interpretação da Constituição, das leis, da aplicação da lei", disse. Essa característica define o regime como teocrático, onde qualquer desvio dos preceitos religiosos por parte de qualquer poder pode resultar em punições pela camada religiosa do governo.
A questão nuclear iraniana
Durante a entrevista, também foi abordada a questão do programa nuclear iraniano. Alexandre Pires contestou afirmações de que o Irã estaria a apenas duas semanas de desenvolver uma arma nuclear. "Nós já descobrimos que essas estimativas, digamos, um pouco exageradas, estavam extremamente erradas. Depois do ataque americano, se eles tivessem há duas semanas de uma ogiva de uma bomba nuclear, nós já teríamos visto ela desfilando em praça pública".
No entanto, o professor reconheceu os avanços tecnológicos do país: "Eles estavam muito avançados em modificar as suas centrífugas, que é uma tecnologia inclusive muito parecida com a que o Brasil usa, a ponto de enriquecer acima de 90% numa quantidade suficiente para conseguir fazer uma bomba". Segundo ele, foi essa capacidade técnica que aumentou a preocupação internacional, especialmente dos Estados Unidos, sobre o programa nuclear iraniano.


