Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Trump revive "Terceiro Mundo" para revogar green cards

Presidente revisará retroativamente os vistos de permanência de 19 países invocando "Terceiro Mundo", uma escalada inédita em momento em que enfrenta rejeição crescente

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A recente determinação do governo Trump de reexaminar todos os green cards emitidos a cidadãos de 19 países considerados "de atenção" representa uma guinada inédita na política migratória americana.

A medida foi anunciada após um ataque em Washington D.C., que feriu dois membros da Guarda Nacional, atribuído a um cidadão afegão. A novidade não está exatamente na resposta securitária a um incidente isolado - está na natureza retroativa e abrangente da política, que agora alcança não apenas novos requerentes, mas residentes permanentes legalmente estabelecidos e casos de asilo já aprovados durante a gestão Biden.

A lista dos países sob escrutínio (Afeganistão, Haiti, Venezuela, Cuba, Irã, Birmânia, Chade, República do Congo, Guiné Equatorial, Eritreia, Líbia, Somália, Sudão, Iêmen, Burundi, Laos, Serra Leoa, Togo e Turcomenistão) revela menos uma lógica geográfica coerente do que uma cartografia ideológica do ressentimento.

Mais revelador ainda é o anúncio de Trump de suspender permanentemente a imigração oriunda de "países do Terceiro Mundo", categoria anacrônica que remete à Guerra Fria e à divisão, existente, naquele momento histórico, entre países alinhados aos Estados Unidos (Primeiro Mundo), à URSS (Segundo Mundo) e os não-alinhados do então chamado “Sul Global”.

Cunhado pelo demógrafo francês Alfred Sauvy nos anos 1950 em analogia ao Terceiro Estado da Revolução Francesa, o termo carregava originalmente sentido geopolítico de autonomia estratégica, não meramente sócio-econômico ou obviamente identitário. Sua ressurreição discursiva por Trump em 2025 não é acidental: evoca hierarquias civilizacionais academicamente superadas, mas politicamente potentes.

O que distingue este segundo mandato do anterior é a escalada institucional. Durante 2017-2021, Trump focou em restringir novas entradas - a Ordem Executiva 13769 suspendeu temporariamente viagens de países de maioria muçulmana e o programa de refugiados. Agora, a lógica se aprofunda: não basta barrar portões, é preciso revisar quem já entrou.

Green cards e asilos concedidos tornam-se passíveis de revogação, introduzindo insegurança jurídica sem precedentes. O endurecimento não aguardou crises para se justificar: estava programado desde o início do segundo mandato, como demonstram as proibições amplas já em vigor desde junho de 2025.

Contudo, a popularidade dessas medidas mostra sinais de erosão. Pesquisa Ipsos divulgada recentemente indica que apenas 41% dos americanos aprovam a condução de Trump na imigração, contra 51% de desaprovação, queda de dois pontos percentuais em relação a junho. Entre latinos e independentes, setores eleitoralmente críticos, a resistência cresceu. Operações de detenção em massa provocaram reações negativas mesmo entre quem inicialmente apoiava controles mais rígidos, evidenciando que a percepção de que imigrantes contribuem economicamente ganha força e mina a narrativa do "encargo público" mobilizada pelo presidente.

O paradoxo trumpista se evidencia: quanto mais radical a política, mais estreita sua base de sustentação. A retórica de incompatibilidade com a "civilização ocidental”, empregada para justificar deportações e cancelamento de benefícios a "não-cidadãos”, ecoa teorias de choque civilizacional descreditadas nas Relações Internacionais.

Trata-se de um projeto que combina nativismo cultural, securitização da imigração e revisionismo institucional, visando remodelar não apenas fluxos futuros, mas desfazer decisões administrativas consolidadas.

As implicações transcendem os Estados Unidos. Ao condicionar residência permanente à origem nacional e invocar categorias como "Terceiro Mundo", Trump desafia normas liberais de não-discriminação consolidadas no pós-Guerra.

Para o sistema internacional de refúgio, a mensagem é inequívoca: nem status legal nem tratados garantem segurança quando a política doméstica se radicaliza. A crise não é apenas de uma administração, mas do próprio paradigma que supúnhamos estabilizado.