Fernanda Pressinott
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Fernanda Pressinott

Comanda o CNN Agro. Atua há mais de 25 anos em economia e agronegócio, com passagens pelo Valor Econômico, Globo Rural, Isto É e como comentarista na Globo News. Tem MBA pela FIA, Insper e FGV.

Análise: Recuperação da Raízen, o momento de teste para o império

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O pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, envolvendo cerca de R$ 65 bilhões em dívidas, marca um dos eventos corporativos mais relevantes do Brasil nos últimos anos. Não apenas por ser a maior renegociação extrajudicial já registrada no país, mas porque coloca sob os holofotes um dos maiores conglomerados nacionais: a Cosan.

Durante mais de duas décadas, a Cosan construiu uma reputação rara no mercado brasileiro. Sob a liderança de Rubens Ometto, o grupo transformou um negócio de açúcar e etanol em um conglomerado de energia e infraestrutura com presença em combustíveis, logística, gás natural e distribuição. A criação da Raízen, em parceria com a Shell, foi talvez o símbolo mais claro dessa ambição: construir uma gigante global de bioenergia.

Por anos, a narrativa funcionou.

A Raízen tornou-se uma das maiores produtoras de etanol do mundo, expandiu sua rede de distribuição de combustíveis, investiu em bioenergia e se posicionou como uma das empresas brasileiras mais bem colocadas na agenda da transição energética. Em um momento em que o mundo buscava alternativas aos combustíveis fósseis, a empresa parecia ocupar exatamente o espaço certo.

Mas crescimento rápido quase sempre vem acompanhado de um custo. No caso da Raízen, esse custo foi a dívida.

O preço da expansão

Nos últimos anos, a empresa seguiu uma estratégia agressiva de expansão. Houve investimentos pesados em modernização de usinas, desenvolvimento de etanol de segunda geração, ampliação da logística e integração de diferentes negócios energéticos.

Grande parte dessa expansão foi financiada por crédito.

Durante muito tempo, isso parecia racional. O ambiente global era de juros baixos, capital abundante e investidores dispostos a financiar projetos ligados à transição energética. O problema é que o cenário mudou.

Com juros mais altos e crédito mais seletivo, empresas altamente alavancadas passaram a enfrentar pressões maiores sobre fluxo de caixa e estrutura de capital. A dívida que antes parecia administrável passou a exigir ajustes mais profundos.

A recuperação extrajudicial surge justamente como essa tentativa de ajuste.

Um problema que vai além da Raízen

Embora o processo esteja formalmente restrito à Raízen, o impacto simbólico atinge diretamente a Cosan. A holding construiu sua estratégia justamente sobre a ideia de integração entre diferentes ativos de energia e infraestrutura.

Por isso, quando a principal empresa do grupo precisa renegociar dezenas de bilhões de reais em dívidas, a discussão inevitavelmente se desloca para a estratégia do conglomerado como um todo.

Investidores começam a fazer perguntas incômodas: o modelo de crescimento baseado em aquisições e alavancagem chegou ao limite? A Cosan terá espaço para apoiar a subsidiária sem comprometer seu próprio balanço? E, talvez mais importante, qual é o tamanho real do risco financeiro dentro do grupo?

A lógica da reestruturação

Na prática, a recuperação extrajudicial é uma tentativa de reorganizar o balanço antes que a situação se deteriore ainda mais. O plano envolve negociar prazos com credores, aliviar pagamentos no curto prazo e possivelmente converter parte das dívidas em participação acionária.

Também há discussões sobre aportes de capital por parte dos controladores.

Se o processo funcionar, a empresa pode reduzir significativamente seu nível de alavancagem e ganhar tempo para ajustar suas operações. Se falhar, o risco é uma escalada para uma recuperação judicial mais ampla.

Um sintoma de um ciclo econômico

O caso Raízen também reflete algo maior do que os problemas de uma única empresa.

Durante a última década, muitas companhias brasileiras cresceram rapidamente apoiadas em crédito relativamente barato. Infraestrutura, energia e agronegócio foram setores particularmente intensivos nesse modelo.

Com a mudança no ambiente de juros e financiamento, esse ciclo começa a mostrar seus limites.

O teste de longo prazo

Ainda é cedo para afirmar qual será o desfecho da reestruturação. A empresa tem ativos relevantes, posição estratégica no setor de bioenergia e apoio de acionistas poderosos. Esses fatores aumentam as chances de uma solução negociada.

Mas o episódio já cumpre um papel importante: ele marca um momento de inflexão na percepção do mercado sobre risco, crescimento e alavancagem.