Antes do sol, Luanda já está na rua — e espera pelo Brasil
Enquanto a capital angolana acorda entre buzinas, motos e comércio informal, o país busca no Brasil tecnologia, produtores e investimentos para aumentar a produção de alimentos e reduzir a dependência das importações.

Nem havia amanhecido direito quando Luanda já estava em movimento. Nas ruas, carros, motos e tuc-tucs dividem o mesmo espaço. Não parece haver muita coisa entre a pressa e o acidente. Capacetes são raros. A velocidade é alta. Pessoas caminham no meio dos veículos, atravessam entre motos e carros, procuram uma brecha onde aparentemente não existe.
E, quando falta espaço, sobra buzina. Buzina para avisar que vai passar. Para pedir passagem. Para reclamar. Para simplesmente dizer: estou aqui.
O trânsito parece não ter freio. Tem buzina.
No meio dele, a cidade vai acordando. Nas calçadas, mulheres caminham com mercadorias equilibradas sobre a cabeça. Sacolas, caixas, alimentos, objetos que fazem parte do comércio do dia.
O corpo se adapta ao peso. A coluna permanece ereta. Os passos são firmes. É uma imagem que se repete pelas ruas de Luanda. E talvez seja uma das melhores imagens para entender Angola.
Um país que quer crescer, produzir mais, importar menos e atrair investimentos, mas onde uma parte enorme da economia ainda acontece na rua, no improviso, no esforço diário de quem precisa transformar o que tem em renda.
É difícil olhar para Luanda e enxergar apenas os números que aparecem nas apresentações de empresários e autoridades. Nos últimos dias, ouvi falar de agricultura, irrigação, máquinas, fertilizantes, produção de alimentos, frango, ovos, investimentos e parcerias com o Brasil.
A discussão parece distante daquela mulher que passa carregando mercadorias sobre a cabeça. Angola gasta US$ 1,4 bilhão por ano com a importação de alimentos. O país quer diminuir essa dependência e fazer com que uma parcela maior da comida consumida pelos angolanos seja produzida dentro de suas próprias fronteiras.
E é justamente aí que o Brasil aparece. Enquanto Luanda desperta no improviso, os dois países discutem projetos de outra escala. Uma das propostas prevê cerca de US$ 120 milhões para levar produtores brasileiros a 20 mil hectares em Angola, em uma operação que envolve produção agrícola e a entrada de máquinas, insumos, tecnologia e financiamento.
São 20 mil hectares. É um número que cabe em uma apresentação de PowerPoint. Mas, olhando daqui, ele parece outra coisa. São milhares de hectares que precisam ser preparados, plantados, irrigados, colhidos e transportados.
Angola tem terra. Tem água. Tem espaço. O Banco Mundial estima que o país tenha mais de 58 milhões de hectares de terra arável e diz que a agricultura já garante o sustento de mais da metade da população ativa. O problema é que a produtividade continua baixa e o país ainda precisa importar grandes volumes de alimentos.
Um país com território enorme e potencial agrícola ainda precisa comprar comida de fora. É como se houvesse uma despensa gigantesca, mas faltassem ferramentas para colocá-la em funcionamento.
O interesse angolano está na experiência do Brasil. Afinal, houve um tempo não tão distante em que o Cerrado brasileiro era visto como uma região de difícil exploração agrícola. Pesquisa, correção de solos, adaptação de cultivares, mecanização, crédito e infraestrutura ajudaram a transformar aquela fronteira em uma das maiores regiões produtoras de grãos do planeta.
Agora, Angola olha para essa história e pergunta se parte dela pode ser repetida aqui. não só nas fazendas, mas também no crescimento energético, sistema de armazenamento, transporte e, principalmente, crédito ao produtor.
E é preciso que a riqueza produzida chegue à vida de quem acorda antes do sol. Talvez por isso a cena das ruas seja tão importante para entender a discussão agrícola. A mulher que carrega mercadorias na cabeça não está falando de produtividade. Está falando de renda, de comércio, de alimentação, de trabalho, de uma economia que ainda funciona muito mais no esforço humano do que na máquina.
Luanda não espera o dia nascer para começar. Ela simplesmente começa. Enquanto isso Angola tenta descobrir como produzir mais comida, atrair investimentos e transformar sua economia e a vida de milhões de pessoas.
