STF em crise: o que o agronegócio pode ganhar ou perder com a instabilidade
Setor acompanha os efeitos da instabilidade sobre as eleições de 2026, o câmbio e a segurança jurídica, enquanto enfrenta crédito mais restrito e aumento das recuperações judiciais.

A crise institucional envolvendo o STF (Supremo Tribunal Federal) começa a entrar no radar do agronegócio não por um impacto direto sobre a produção ou as exportações, mas pelo efeito que a instabilidade pode provocar sobre as eleições de 2026, o câmbio, os investimentos e a segurança jurídica.
No curto prazo, o impacto econômico mais provável está na percepção de risco. Investidores e empresas podem adiar decisões até que haja maior clareza sobre os rumos políticos e institucionais do país.
No longo prazo, porém, parte do setor enxerga uma possibilidade diferente: se a crise resultar em uma discussão capaz de produzir reformas e melhorias institucionais, o resultado poderia ser um ambiente de maior segurança jurídica e previsibilidade para os negócios.
É uma discussão que ganha importância justamente porque o agro já chega a este momento sob pressão financeira.
O professor Marcos Fava Neves avalia que uma parcela importante do agronegócio prefere um governo mais orientado à competitividade empresarial, às reformas e ao ajuste das contas públicas. Na leitura dele, a crise do STF também recolocou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, no radar da sucessão presidencial.
A questão, para o agro, não é apenas política. Uma eventual mudança de governo pode alterar a percepção sobre o ambiente de negócios, mas também pode mexer em uma variável central para o setor: o câmbio.
Para um agronegócio fortemente exportador, um real mais valorizado tem efeitos ambíguos. Reduz o custo, em reais, de máquinas, fertilizantes e outros insumos importados, mas diminui a receita obtida em moeda brasileira por quem vende soja, milho, carnes, açúcar, café e outras commodities no exterior.
Por isso, a preferência por um determinado projeto econômico não significa necessariamente que todo o setor ganharia com uma valorização do real.
Vários empresários e líderes do setor disseram à reportagem da CNN que o agro, como outros setores econômicos, quer competitividade, previsibilidade e reformas, mas também precisa de um câmbio que preserve a rentabilidade da produção exportadora.
Onde a crise institucional encontra a crise do crédito
Há, porém, um segundo canal pelo qual a crise do STF pode afetar o agronegócio e ele é menos visível. O setor já enfrenta uma deterioração importante das condições de financiamento. Segundo levantamento da RGF-BIZDOC, as emissões de CRA (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) caíram de uma média mensal de R$ 5,3 bilhões no segundo semestre de 2025 para R$ 1,2 bilhão no primeiro semestre de 2026, uma retração de 77%.
Ao mesmo tempo, gestoras passaram a exigir garantias equivalentes a 60% a 80% do valor dos ativos. E as ações judiciais envolvendo CPRs (Cédulas de Produto Rural) passaram de cerca de 100 por mês em 2022 para mais de 400 em junho deste ano.
A deterioração também aparece nas recuperações judiciais. A base da Receita Federal utilizada pelo Monitor RGF-BIZDOC mostra que o número de empresas do agronegócio com registro de recuperação judicial passou de 313 em março de 2023 para 1.336 em agosto de 2026, mais de quatro vezes em pouco mais de três anos.
O índice de recuperações judiciais por mil empresas ativas chegou a 1,90 no agro, contra 0,31 no conjunto da economia. Em 12 meses, o número de empresas do setor em recuperação judicial cresceu 66%, ante 21% no total das empresas.
E existe uma limitação importante nesses números: a estatística considera CNPJs. Portanto, não captura integralmente a onda de recuperação judicial envolvendo produtores rurais pessoas físicas.
É nesse ambiente já deteriorado que a crise institucional passa a fazer diferença. Segundo Claudio Damasceno, especialista em reestruturação e recuperação judicial e sócio da RGF-BIZDOC, a atual crise não pode ser apontada como causa do fechamento do crédito rural, mas acrescenta uma camada de incerteza a um mercado que já está mais defensivo.
Um analista do mercado de grãos faz avaliação semelhante e relata que já viveu situações em que decisões empresariais ficaram “on hold” diante de crises e falta de clareza sobre o cenário. Na avaliação dele, investidores podem preferir esperar uma definição maior antes de avançar com determinados projetos.
O câmbio aparece novamente como uma das principais variáveis, mas, segundo o analista, ainda é difícil prever para que lado a moeda brasileira vai se mover.
Para quem financia o agro, não basta avaliar a capacidade de pagamento do produtor ou da empresa. Também é preciso olhar para a qualidade das garantias e para a possibilidade de executá-las caso o devedor não consiga cumprir o contrato.
Quanto maior a dúvida sobre as regras e sobre o tempo necessário para obter uma decisão definitiva, maior pode ser a cautela de quem coloca dinheiro no setor. E isso tem efeito direto sobre o custo do capital.
Para uma empresa em crise, tempo também é dinheiro.
Quanto mais longa a indefinição, maior pode ser a deterioração da operação, do patrimônio e da capacidade de pagamento que deveriam sustentar a recuperação. Por isso, o problema para o agro não é necessariamente uma decisão do Supremo que provoque uma fuga imediata de capital.
É algo mais difuso: a incerteza sobre as regras pode aumentar o prêmio de risco justamente quando o setor já tem menos margem financeira para absorvê-lo.
O que o agro realmente tem a ganhar... ou perder
A crise também ajuda a explicar a mobilização de parte do setor produtivo em torno da discussão institucional. O manifesto divulgado em 9 de setembro reuniu mais de 3 mil entidades, entre elas Faesp (Federação da Agricultura do Estado de São Paulo), Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), ABCZ (Associação Brasileira dos Criadores de Zebu), SRB (Sociedade Rural Brasileira), Sistema Famato (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso) e Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia).
Mais do que uma posição sobre a disputa política, o movimento pode ser lido sob a ótica econômica como uma defesa da previsibilidade.
Para um setor que investe antes de colher, contrata financiamento por vários anos e depende de contratos e garantias para movimentar bilhões de reais, previsibilidade tem valor econômico.
No curto prazo, o setor corre o risco de enfrentar mais cautela, mais espera e maior seletividade justamente quando o crédito já está apertado.
No médio prazo, as eleições podem redefinir a política econômica, o equilíbrio fiscal, os juros e o câmbio.
No longo prazo, existe uma terceira possibilidade: uma crise institucional pode terminar produzindo uma reforma capaz de fortalecer as regras e reduzir a insegurança jurídica.



