Fernando Nakagawa
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Fernando Nakagawa

Repórter econômico desde 2000. Ex-Estadão, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Paulistano, mas já morou em Brasília, Londres e Madri

A cada R$ 1 renegociado no Desenrola, surgiu R$ 1,15 em novo calote

Inadimplência no sistema financeiro cresceu R$ 61 bilhões desde o fim do programa federal que repactuou R$ 53 bilhões há dois anos

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O esforço de negociação foi gigantesco, mas a realidade dos juros compostos se impôs e toda a “limpeza” do calote realizada pelo Desenrola foi anulada. Dados do Banco Central revelam que a cada R$ 1 renegociado no programa federal, o sistema financeiro viu, desde então, brotar R$ 1,15 em inadimplência nova.

Lançado com a promessa de ser uma virada de página para a vida financeira dos brasileiros, o programa Desenrola Brasil teve números exuberantes: repactuou dívidas de 14,8 milhões de pessoas em 24,2 milhões de operações de crédito que, juntas, somavam R$ 53,2 bilhões em inadimplência.

Um mergulho nos microdados do Banco Central, no entanto, revela que desde então, o estoque dos calotes na pessoa física cresceu R$ 61 bilhões.

Ou seja, em menos de dois anos, o calote novo superou em 15% o total renegociado. Hoje, o sistema bancário tem a marca alarmante – e recorde – de R$ 171,4 bilhões em operações de crédito com atrasos superiores a 90 dias nos pagamentos. O dado é de fevereiro de 2026.

O que ser viu foi um típico “efeito sanfona” comum nas dietas mal planejadas, mas dessa vez com efeitos no bolso dos brasileiros: a iniciativa do governo conseguiu emagrecer a dívida das famílias em 2024, mas em 2026 elas voltaram a engordar — e pior: com juros muito maiores.

Quando o Desenrola foi concluído, em maio de 2024, o juro médio praticados nos empréstimos às pessoas físicas era de 52,6% ao ano. Hoje, a taxa média é 10 pontos percentuais maior: 62%. Portanto, famílias estão mais endividadas em operações com juros maiores.

A situação torna mais difícil a gestão dos compromissos financeiros. Esse quadro parece ser uma das explicações para o aumento da inadimplência: em maio de 2024, quando o programa terminou, a taxa de inadimplência era de 5,5%. Hoje, está em 6,9%.

O cenário sugere que o Brasil apenas enxugou o gelo.

O Desenrola atuou como um remédio para o sintoma que era a lista de negativados. Esse sintoma melhorou temporariamente. A doença, porém, continua mais forte que nunca: que é o desequilíbrio profundo entre juros elevados, superoferta de crédito e novos destinos para o orçamento familiar, como as apostas esportivas.

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