Fernando Nakagawa
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Fernando Nakagawa

Repórter econômico desde 2000. Ex-Estadão, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e Gazeta Mercantil. Paulistano, mas já morou em Brasília, Londres e Madri

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Na era dos muros altos, Europa e Mercosul escolhem construir uma ponte

Acordo comercial não é apenas sobre vender carros alemães ou soja brasileira. É sobre não desistir dos valores do pós-Guerra

Bandeiras do Mercosul e da União Europeia (UE)
Bandeiras do Mercosul e da União Europeia (UE)  • Reprodução/Ipea
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Analisar o tabuleiro do planeta Terra em janeiro de 2026 mostra um jogo de War complicado. A guerra arrastada na Ucrânia, as tensões crescentes em Taiwan e, aqui do nosso lado, a invasão americana na Venezuela revelam uma partida tensa.

No meio desse barulho de helicópteros, drones e sanções, o som da caneta será, por alguns minutos, o mais alto.

A concretização do acordo Mercosul-União Europeia não é apenas sobre vender carros alemães sem tarifa ou exportar soja brasileira com facilidade. É sobre não desistir.

A Europa passou as últimas décadas acreditando em dois pilares: a segurança garantida pelos EUA e a energia barata da Rússia.

A realidade, porém, se impôs. O conflito na Ucrânia implodiu o pilar da segurança energética. E, do outro lado do Atlântico, a volta de Donald Trump afastou o velho – e até então confiável – parceiro comercial e militar.

Diante desse cenário, muitos tendem a se fechar. Bruxelas, porém, indica que vai dobrar a aposta.

O Mercosul tem a comida que a Europa precisa e conta com os minerais, sol e vento essenciais para a revolução verde europeia.

Ao assinar o acordo de livre comércio, a Europa tenta trocar a dependência de autocratas pelo alinhamento ao bloco que, apesar dos pesares, se mantém na defesa dos valores ocidentais do pós-guerra.

O dobrar da aposta, porém, não se limita apenas ao fornecimento de alimentos e energia. Também é sobre o mundo que europeus desejam.

Nele, o ponto mais fascinante talvez seja o filosófico. A União Europeia nasceu das cinzas da Segunda Guerra com uma tese simples: quem negocia não guerreia.

A Comunidade do Carvão e do Aço foi criada em 1951 para que Alemanha, França, Itália, Países Baixos e a Bélgica nunca mais brigassem. É a maior semente da UE.

Quase um século depois, o acordo europeu está longe da perfeição, assim como o Mercosul tem muitos e profundos problemas.

Mas esse acordo comercial entre os dois lados do Atlântico é um movimento contracíclico.

Bruxelas diz ao mundo que ainda acredita que o multilateralismo pode ser a vacina contra a barbárie.

O muro alto não será combatido com outro ainda maior. Europeus e sul-americanos querem construir uma ponte. Que ela seja grande, útil e bonita.

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