O comércio é um rio: Davos prega adaptação contra o protecionismo
No Fórum Econômico Mundial, prevalece entendimento de que o mundo que conhecíamos não existe mais; “novo normal” é a incerteza e é preciso se adaptar

Acabou o encontro da elite global nos Alpes Suíços. Se em anos anteriores o Fórum Econômico Mundial terminava com promessas vagas de um mundo melhor, o recado de 2026 foi um balde de realismo: o mundo que conhecíamos não existe mais. Esqueça o retorno à normalidade pré-pandemia.
O “novo normal” é a incerteza geopolítica, geoeconômica e, em tempos de inteligência artificial, até geotecnológica.
Com as novas barreiras comerciais e o protecionismo agressivo vindo dos Estados Unidos, muitos esperavam pânico em Davos. Mas o que se viu na semana foi pragmatismo. A palavra de ordem não é desespero, é adaptação.
Kristalina Georgieva, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, foi quem melhor traduziu o momento com uma imagem otimista: o comércio global é como um rio.
A economista defende que quando você coloca uma pedra enorme no meio de um rio — o que pode ser uma tarifa ou sanção — a água segue a vida ao contornar o obstáculo.
A água acha um novo caminho, cava novas margens e continua fluindo. Para Georgieva, é exatamente isso que está acontecendo: o mercado financeiro e as cadeias de suprimento não vão parar por causa de decretos políticos.
É o que Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, chamou de "Plano B". A Europa, a China e os emergentes estão aprendendo a viver com a autonomia estratégica, separando o ruído político do dado econômico real.
Mas nem tudo é resiliência. Existe uma luz vermelha piscando furiosamente nos bastidores e precisamos falar sobre ela: a dívida pública.
O FMI projeta um crescimento mundial de 3,3% neste ano. É um ritmo admirável, mas insuficiente porque a conta não fecha. A dívida global está beirando 100% do PIB mundial. O Brasil também sofre do mesmo problema, com a dívida pública em clara trajetória de alta.
Traduzindo: estamos pedalando uma bicicleta pesada numa subida íngreme. Se o crescimento não for robusto, os países mais instáveis não conseguirão rolar essa dívida, aumentando a desigualdade e o risco de calotes. Assim, a bicicleta vai descer, e não subir.
Davos 2026 nos ensina que tentar controlar o caos é inútil. A relevância agora está em quem sabe navegar. O rio está mais agitado, cheio de pedras novas, mas a água continua correndo. Quem ficar parado esperando a calmaria, vai afundar.



