Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Conselho de Paz de Trump coloca a ONU sob estresse

Iniciativa nasce de Gaza, flerta com a sobreposição à organização e reembaralha a geopolítica no momento em que Groenlândia, OTAN e tarifas viram o centro do risco

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O anúncio feito em Davos não foi apenas mais um gesto performático de Donald Trump.

Ao formalizar um “Conselho” — ou “Board” — da Paz, com carta assinada ao lado de representantes de países convidados, a Casa Branca ensaia uma reorganização pragmática da governança internacional, com potencial direto de reavaliar o risco diplomático, jurídico e institucional — um movimento que começa a entrar no radar de decisões de alocação de capital, sobretudo em investimentos de longo prazo e alta exposição geopolítica.

O movimento tenta resolver dois problemas simultâneos: acelerar resultados em conflitos específicos, começando por Gaza, e criar um fórum no qual Washington define ritmo, critérios e, sobretudo, a régua de legitimidade. Não é apenas diplomacia — é método.

Quando Trump sugere que o novo órgão “poderia” substituir a ONU, a questão deixa de ser retórica e passa a funcionar como indicador de risco sistêmico. A resposta pública veio calibrada: o Conselho atuaria “com muitos outros, incluindo as Nações Unidas”.

A frase não elimina a tensão, mas reduz a volatilidade imediata ao sinalizar cooperação sem abrir mão da ambição.

Formalmente, o Conselho da Paz não substitui o Conselho de Segurança. Não reescreve a Carta da ONU, nem cria poder jurídico vinculante.

O ponto central é outro: se passa a exercer parte das funções políticas do Conselho quando este está travado por veto, custo doméstico ou fadiga de consenso.

O desenho institucional cria um atalho decisório: menos universalidade, mais velocidade, com claro viés de governança. Para aliados, o risco é a corrosão gradual da centralidade da ONU.

Para o mercado, trata-se de um stress test do multilateralismo. A proliferação de fóruns paralelos reduz a previsibilidade institucional, amplia assimetrias de poder e fragiliza a leitura de governança global.

Mais cedo ou mais tarde, esse ruído emerge em prêmio de risco — seja na precificação de CDS soberanos, no alargamento de spreads ou no WACC exigido para projetos em regiões sob governança fragilizada — com impacto direto sobre decisões de investimento de longo prazo.

O termômetro mais objetivo não está no discurso, mas na lista. Mais de 50 países foram convidados; entre 20 e 25 teriam aceitado.

Há adesões relevantes — Arábia Saudita, Turquia, Egito, Jordânia, Indonésia, Paquistão, Catar e Emirados Árabes Unidos — que dão densidade regional à iniciativa no Oriente Médio.

O dado que pesa é a hesitação de aliados centrais. Membros permanentes do Conselho de Segurança, como França e Reino Unido, não aderiram ou evitaram compromisso formal.

Londres, em particular, citou o risco de dividir espaço institucional com Vladimir Putin enquanto a guerra na Ucrânia permanece sem horizonte claro de solução.

O resultado é uma coalizão com tração regional, mas sem a unanimidade simbólica capaz de transformá-la em referência global incontestável. Um arranjo funcional, não consensual.

Embora já estivesse em gestação, com carta circulando antes de Davos, Trump “capturou” a agenda ao acoplar o Conselho ao mesmo arco narrativo que dominou o fórum: Groenlândia, Otan e tarifas.

O efeito foi imediato. Ao lançar um organismo de “paz” no mesmo palco em que pressiona aliados por comércio e território, Trump transforma o Conselho em instrumento de alavancagem diplomática.

O contraste é revelador. De um lado, discurso de reconstrução, governança e accountability. De outro, pressão explícita sobre o Ártico, a Groenlândia e a arquitetura de defesa da Otan.

Para aliados europeus, o Conselho passa a ser lido não apenas como mecanismo de paz, mas como extensão de uma diplomacia transacional, capaz de reorganizar fóruns conforme conveniência estratégica.

Do ponto de vista econômico, isso eleva o ruído estrutural: uma governança global fragmentada tende a carregar mais volatilidade de expectativas, maior sensibilidade a manchetes e impacto direto sobre custo de capital, especialmente em regiões sob guarda-chuva institucional frágil.

Não há mandato ambiental explícito no Conselho. O componente climático entra por vias indiretas — e, em 2026, essas vias podem ser centrais. A reconstrução em Gaza envolve energia, água, saneamento e resiliência.

O Ártico, recolocado no centro do debate estratégico, é onde clima, logística e defesa se sobrepõem.

O ambiental não desaparece. Ele muda de envelope — e passa a ser tratado como variável de segurança, investimento e poder.