Gabriella Weiss
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Gabriella Weiss

É redatora da CNN Agro e foi repórter na Globo Rural e no Valor Econômico. Formada pela UFJF, tem especialização pela Université de Paris.

Crise do enxofre muda mercado de fertilizantes e reduz produção no Brasil

Pressão sobre a matéria-prima começa a afetar a capacidade produtiva, em um mercado já marcado por demanda mais fraca; Mosaic, EuroChem e OCP reduziram operações

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A Mosaic paralisou unidades e mira vender a fábrica de Araxá (MG). A Eurochem realizou layoff na Serra do Salitre (MG), que já foi a "menina dos olhos" da empresa russa. A OCP, um dos maiores produtores mundiais de fosfatados, também reduziu em cerca de 30% a produção no Marrocos diante das condições do mercado. 

Os movimentos já não são isolados. Eles indicam que a crise dos fertilizantes fosfatados entrou em uma nova fase: o problema já não está apenas no preço do enxofre, na dificuldade de importação ou na perspectiva de falta de produto. A pressão chegou à operação das fábricas.

O ponto mais relevante dessa sequência é que a indústria está ajustando a oferta justamente em um momento de demanda enfraquecida. E isso torna o cenário mais complexo do que uma simples história de falta de fertilizantes.

Desde o início do ano, o mercado brasileiro de fertilizantes vem convivendo com dois movimentos simultâneos. De um lado, o produtor perdeu poder de compra, em razão dos preços dos insumos, das condições financeiras do campo e do crédito mais caro. De outro, a indústria passou a enfrentar custos elevados para produzir, principalmente nos fosfatados, em razão do enxofre.

A Mosaic já havia deixado isso claro em junho, quando afirmou que o custo de produção de alguns fosfatados havia ultrapassado o preço pelo qual o produto poderia ser vendido. A companhia paralisou unidades no Brasil e nos Estados Unidos justamente diante desse desequilíbrio.

A consequência é uma espécie de círculo: o fertilizante fica mais caro, o produtor adia ou reduz a compra, a demanda cai, mas a indústria também não consegue manter toda a capacidade produtiva diante dos custos elevados. A queda da demanda, portanto, não resolve automaticamente o problema de oferta. É esse o ponto que começa a aparecer com mais nitidez agora.

Em julho, discussão ainda estava muito concentrada na contradição entre os planos brasileiros de reduzir a dependência das importações e a perspectiva de encolhimento da capacidade doméstica. Os fosfatados eram, entre os três principais grupos de nutrientes, aqueles em que o Brasil tinha a maior produção relativa. Mas, mesmo assim, a indústria já indicava redução de capacidade. Desde então, a situação avançou e, agora, as próprias empresas produtoras estão ajustando suas estruturas.

Isso não significa que o Brasil esteja necessariamente diante de uma falta generalizada de fertilizantes. Há importações, estoques remanescentes e possibilidade de redirecionamento de produto entre mercados. A própria Mosaic disse que poderia utilizar sua produção na América do Norte para atender o Brasil caso houvesse disponibilidade e demanda.

Mas existe uma diferença importante entre ter produto disponível no mercado e ter capacidade produtiva suficiente para responder rapidamente a uma recuperação da demanda. Essa distinção pode se tornar especialmente relevante daqui para frente.

A demanda brasileira de fertilizantes está mais fraca neste ano. Dados e projeções já apontavam uma desaceleração nas compras, e os preços dos fosfatados chegaram a recuar nas últimas semanas justamente em parte por causa da menor procura brasileira por importações. O SSP, por exemplo, acumulou queda de cerca de 30% entre o início de maio e o fim de agosto.

À primeira vista, preços menores e demanda menor poderiam indicar um mercado caminhando para uma normalização. Mas a indústria está operando com outra equação, a de que produzir ficou mais caro e, em alguns casos, a conta deixou de fechar. É por isso que as paralisações merecem ser observadas para além do efeito imediato sobre os volumes.

Se a demanda continuar fraca, a indústria pode manter parte da capacidade parada sem que isso provoque imediatamente uma escassez. Mas, se a demanda voltar antes que o fornecimento de enxofre se normalize e as unidades retomem a produção, o mercado pode se encontrar em uma situação diferente, em que o produtor volta a querer comprar justamente quando uma parte da capacidade de produção está fora de operação.

A situação também expõe uma característica estrutural da cadeia de fertilizantes. O Brasil discute há anos como reduzir sua dependência externa, mas a expansão da produção doméstica não depende apenas da existência de jazidas ou da construção de novas fábricas. Depende de uma cadeia de matérias-primas competitiva, capital para investimentos e condições econômicas que permitam operar essas plantas.

No caso dos fosfatados, o episódio atual mostra isso de maneira bastante concreta. O país pode ter rocha fosfática e capacidade industrial instalada, mas isso não significa que toda essa capacidade seja economicamente viável em qualquer cenário de preços.

O enxofre, que durante muito tempo ficou em segundo plano nas discussões sobre segurança de fertilizantes, acabou se transformando em uma variável capaz de alterar decisões industriais.

E talvez a principal mudança observada agora seja justamente essa: a crise deixou de ser apenas uma questão de quanto custa produzir fertilizante e passou a ser uma questão de quanto da indústria continuará produzindo enquanto essa conta não fecha.