Mudança de CEO da Lindt aponta para efeitos persistentes da crise do cacau
A troca de CEO ocorre após resultados abaixo do esperado e novas revisões das projeções, em um mercado que ainda busca recuperar a demanda após o choque da commodity

A saída do presidente-executivo da Lindt & Sprüngli, Adalbert Lechner, anunciada nesta segunda-feira (19), expõe um dos principais desafios da indústria global de chocolates após o recente choque dos preços do cacau: até que ponto as empresas conseguem repassar o aumento dos custos sem afastar consumidores.
A fabricante suíça, conhecida pelo posicionamento premium, elevou os preços de seus produtos para absorver parte do encarecimento da matéria-prima. A estratégia, porém, encontrou limites em mercados europeus, especialmente na Alemanha, na Áustria e na Suíça, onde a empresa identificou enfraquecimento da demanda.
O conselho de administração decidiu substituir Lechner pelo ex-CEO Dieter Weisskopf, que assume interinamente. A companhia pretende escolher um novo presidente-executivo até o segundo trimestre de 2027.
O caso ilustra como a exposição à commodity vai além da dependência de uma matéria-prima. Para fabricantes que preservam o posicionamento de seus produtos, a alta do cacau pressiona os custos de produção. O repasse aos preços protege as margens, mas pode reduzir o consumo. Já mudanças nas receitas e no tamanho das embalagens ajudam a controlar despesas, embora também possam alterar a percepção de valor do consumidor.
Na Lindt, a dificuldade aparece em um momento de revisão das perspectivas de crescimento. Em setembro, a empresa reduziu pela segunda vez no ano sua projeção de crescimento das vendas em 2026, de uma faixa anterior de 4% a 6% para 0% a 2%. A companhia atribuiu o ajuste, entre outros fatores, à fraqueza das vendas na Europa. A mudança na liderança não altera a orientação financeira para o ano, segundo a empresa.
A pressão sobre a demanda ocorre mesmo depois de uma correção expressiva das cotações em relação aos recordes de 2024. A commodity voltou a subir nos últimos meses, em meio às preocupações com a próxima safra, mas a indústria ainda convive com os efeitos do choque anterior de preços. A recuperação da oferta não significa, necessariamente, uma retomada imediata do consumo nem uma redução equivalente dos custos para todas as fabricantes.
Comportamento do consumidor
O encarecimento do cacau entre 2023 e 2025 levou as empresas a rever estratégias comerciais e industriais. Algumas priorizaram reajustes; outras buscaram reduzir custos por meio de mudanças nas formulações, nos tamanhos das embalagens ou na composição de determinadas linhas.
Essas decisões têm consequências diferentes para a exposição à commodity. Fabricantes que mantêm receitas com maior participação de cacau e manteiga de cacau tendem a sentir de maneira mais direta as oscilações dos preços. Empresas com portfólios diversificados, maior flexibilidade de formulação ou produtos menos dependentes desses ingredientes podem ter mais alternativas para administrar os custos.
A diferenciação de marca, contudo, também importa. No segmento premium, a composição e a qualidade do chocolate fazem parte da proposta comercial. Substituir ingredientes ou reduzir o teor de cacau pode comprometer atributos que justificam preços mais elevados. Por isso, uma empresa como a Lindt enfrenta uma escolha particularmente delicada: absorver parte da pressão sobre as margens ou elevar os preços e correr o risco de perder vendas.
O problema não se limita à substituição de marcas. Os consumidores também podem reduzir a frequência de compra, escolher embalagens menores ou migrar para produtos mais baratos. Essas mudanças ajudam a explicar por que a receita de uma fabricante pode continuar crescendo mesmo quando o volume vendido perde força, e por que o faturamento, isoladamente, não é suficiente para medir a recuperação do mercado.
A indústria também precisa considerar o tempo entre a compra da matéria-prima e a venda do produto final. Estoques, contratos de fornecimento e políticas de proteção contra oscilações de preços fazem com que o impacto da cotação internacional apareça de maneira desigual nos resultados das empresas. Mesmo quando o cacau fica mais barato, os custos efetivos podem demorar a acompanhar o movimento.
Recuperação da demanda ainda é incerta
Os dados recentes de processamento oferecem sinais de melhora na demanda por cacau, embora ainda seja cedo para concluir que o consumo global voltou plenamente ao padrão anterior à crise.
A moagem mundial deve alcançar 906 mil toneladas no terceiro trimestre de 2026, segundo estimativa da consultoria StoneX. O volume representa alta de 15% em relação ao mesmo período de 2025 e iguala o resultado de 2024. A comparação, porém, parte de uma base mais fraca: o processamento ainda ficou cerca de 4% abaixo da média dos quatro anos anteriores e 9% inferior ao registrado em 2024.
O processamento industrial funciona como um indicador da demanda porque mede o volume de amêndoas transformadas em produtos como manteiga, pó e massa de cacau. Ainda assim, a moagem não equivale diretamente às vendas de chocolates no varejo. Exportações de derivados, formação de estoques e diferenças regionais também influenciam os números.
A recuperação registrada no terceiro trimestre sugere que a maior disponibilidade de amêndoas começa a chegar às indústrias. O movimento também indica uma possível estabilização depois da retração observada em 2025. Mas a reação dos consumidores aos preços finais continua sendo uma variável importante para determinar a trajetória do mercado.
Em análise publicada em julho, a StoneX apontou que a alta da manteiga de cacau estimulou reformulações, redução de gramaturas e maior uso de gorduras alternativas em algumas categorias. Segundo a consultoria, mudanças desse tipo tendem a persistir, porque as empresas nem sempre revertem rapidamente decisões tomadas durante um choque de custos.
Isso cria um desafio adicional para o mercado de cacau. Mesmo que a oferta aumente e as cotações recuem, a indústria pode não voltar a consumir a mesma quantidade de matéria-prima por unidade de produto. A combinação de embalagens menores, alterações nas receitas e maior sensibilidade dos consumidores aos preços pode limitar a velocidade da recuperação da moagem.
A trajetória da commodity continua relevante para as perspectivas do setor, sobretudo porque a oferta global permanece sujeita a riscos climáticos. A África Ocidental, que concentra a maior parte da produção mundial, enfrenta incertezas para a safra 2026/27, e a possibilidade de um El Niño forte voltou a alimentar preocupações com a produtividade das lavouras.
O mercado, portanto, precisa equilibrar duas forças. De um lado, a recuperação da produção favorece a recomposição dos estoques e pode aliviar os custos da indústria. De outro, as incertezas climáticas limitam a confiança em uma oferta abundante e sustentada nos próximos ciclos.
Para as fabricantes, o desafio é administrar essa volatilidade sem comprometer a competitividade dos produtos. Uma queda das cotações pode aliviar os custos, mas não garante que os preços nas prateleiras recuem na mesma proporção nem que os consumidores retomem imediatamente os hábitos anteriores.



