Gabriella Weiss
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Gabriella Weiss

É redatora da CNN Agro e foi repórter na Globo Rural e no Valor Econômico. Formada pela UFJF, tem mestrado pela Université de Paris.

O boom do etanol não virou festa para as usinas

Apesar da alta do petróleo impulsionar a demanda, custos e preços contidos pressionam as margens das usinas

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A disparada recente dos preços do petróleo no mercado internacional, impulsionada pelos conflitos no Oriente Médio, recolocou o etanol no centro das discussões sobre segurança energética e transição para fontes renováveis. 

Com gasolina e diesel mais caros, cresceu a procura por biocombustíveis tanto no Brasil quanto em outros países, em um movimento associado à tentativa de reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis.

Apesar desse cenário favorável ao consumo, o setor sucroenergético brasileiro não vive um período de expansão de margens semelhante ao observado em anos anteriores. A combinação entre aumento dos custos operacionais, crescimento da oferta e limitações na formação de preços tem reduzido a rentabilidade das usinas, mesmo diante da demanda aquecida.

A situação ajuda a explicar uma aparente contradição do mercado atual: o etanol ganha relevância estratégica, mas as empresas do setor enfrentam um ambiente mais complicado financeiramente.

Segundo estimativas da consultoria Datagro, a produção de etanol no Centro-Sul deve alcançar 38,61 bilhões de litros na safra 2026/27, somando etanol de cana e de milho. O volume representa um recorde histórico para o país e reflete tanto o avanço da moagem de cana-de-açúcar quanto a ampliação da demanda internacional por combustíveis renováveis.

No entanto, o crescimento da produção ocorre em um contexto de pressão sobre os preços. No mercado brasileiro, o etanol hidratado mantém sua competitividade quando custa, em média, até 70% do valor da gasolina. Esse parâmetro funciona, na prática, como um teto informal para o combustível renovável.

O diretor da consultoria Datagro, Guilherme Nastari, avalia que o setor entra em uma fase mais desafiadora após um longo período de alta rentabilidade. Segundo ele, depois de “cinco ou seis anos muito positivos”, a combinação entre crescimento da oferta e preços mais baixos começou a pressionar os resultados financeiros das empresas.

Mesmo em períodos de alta do petróleo, os reajustes da gasolina no Brasil costumam ocorrer de forma gradual, o que limita a capacidade das usinas de repassar integralmente o aumento dos custos ao consumidor final. Além disso, representantes do setor avaliam que medidas adotadas pelo governo federal para reduzir os impactos da alta internacional do petróleo também ajudam a conter o avanço do preço do etanol.

Entre essas medidas está a Medida Provisória publicada este mês, que prevê subsídios de até R$ 0,89 por litro para produtores e importadores de gasolina. O objetivo da iniciativa é reduzir os efeitos da crise energética internacional sobre os preços domésticos dos combustíveis.

Custos de produção

Ao mesmo tempo, os custos de produção aumentaram significativamente nos últimos ciclos agrícolas. Fertilizantes, defensivos agrícolas, maquinário, fretes e combustíveis ficaram mais caros. A alta do petróleo também afetou diretamente o diesel utilizado em caminhões, tratores e operações industriais das usinas.

As dificuldades logísticas globais intensificadas pelos conflitos internacionais ampliaram ainda mais a pressão sobre as despesas operacionais. Na prática, muitas empresas passaram a enfrentar um cenário em que as receitas crescem em ritmo inferior ao aumento dos custos.

O ambiente financeiro também se tornou mais sensível. As incertezas relacionadas à duração dos conflitos no Oriente Médio aumentaram preocupações sobre inflação global e trajetória dos juros internacionais, mantendo elevado o custo de capital para empresas do agronegócio.

Nesse contexto, o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, protocolado em março, ampliou a atenção do mercado sobre o nível de endividamento e a capacidade de adaptação das companhias do setor sucroenergético.

Diversificação dos investimentos

Outro fator que altera a dinâmica do mercado é a expansão acelerada do etanol de milho. Nos últimos anos, novas plantas industriais começaram a operar principalmente na região Centro-Oeste, elevando a oferta nacional do combustível e aumentando a concorrência dentro do próprio setor.

A ampliação da produção de etanol de milho também tem levado usinas a rever estratégias de longo prazo. Parte das empresas passou a investir em diversificação para reduzir a dependência exclusiva do etanol tradicional.

Além da produção de açúcar e etanol, o setor busca ampliar seus investimentos em biogás, biometano, cogeração de energia elétrica e aproveitamento de resíduos industriais. Algumas companhias também buscam utilizar o etanol de milho para manter operações ativas durante a entressafra da cana.

A estratégia de diversificação aparece também como alternativa financeira para empresas que enfrentaram dificuldades recentes. O diretor comercial e acionista da Energética Santa Helena, Luis Coutinho, afirmou que a companhia ampliou investimentos em açúcar e etanol de milho após passar por recuperação judicial. Segundo ele, o objetivo foi elevar a remuneração da operação sem necessidade de expandir significativamente a moagem de cana. Além disso, a companhia voltará a ter gado, diante de co-produtos da usina que podem ser usados para a alimentação animal. 

Mesmo diante das pressões sobre rentabilidade, especialistas avaliam que o etanol continuará ocupando posição estratégica na matriz energética brasileira e internacional. O cenário atual, porém, indica uma mudança no foco das empresas do setor: mais do que ampliar volume de produção, o desafio passa a ser encontrar novas fontes de receita e preservar margens em um mercado mais competitivo.