Gilvan Bueno
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Gilvan Bueno

Especialista em finanças, mercado de capitais e educação financeira. Foi sócio e gerente educacional no mercado financeiro. Trabalhou em bancos de investimentos e corretoras. Foi palestrante no Fórum Global South Financiers 2025, realizado em Beijin, China.

Análise: O Plano Safra pode derrubar o PIB de 2027

Inadimplência atinge 15,2% das operações e pedidos de recuperação judicial disparam, barrando acesso a crédito e o plantio futuro

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Existe uma equação silenciosa que determina, em grande medida, o ritmo de crescimento do Brasil: quando o agronegócio vai bem, a economia respira. Quando vai mal, o PIB sente. E quando o setor entra em crise estrutural como está acontecendo agora — a conta aparece alguns anos depois, com juros.

É exatamente esse horizonte que precisa estar no centro do debate sobre o próximo Plano Safra, previsto para julho. Não se trata apenas de mais um instrumento de crédito rural. Trata-se de uma das decisões de política econômica com maior impacto direto sobre o PIB de 2027. Os números falam por si.

O PIB do agronegócio brasileiro alcançou R$ 3,20 trilhões em 2025, representando 25,13% da economia do país, acima dos 22,9% registrados em 2024, segundo o Cepea/USP em parceria com a CNA. Para além da porteira, o setor é também o colchão da balança comercial: o superávit do agronegócio em 2024 foi de US$ 145 bilhões. Enquanto os demais setores (indústria e serviços) foram deficitários em US$ 71 bilhões.

A contribuição recente foi ainda mais expressiva. O PIB da agropecuária cresceu 11,7% em 2025, sendo responsável por aproximadamente um terço de toda a expansão econômica do Brasil no ano, que fechou em 2,3%.

Em outras palavras, sem o desempenho do campo, o crescimento brasileiro teria sido de modestos 1,5%. A coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, destacou que "apesar de ser uma atividade que não pesa tanto no PIB, a agropecuária cresceu tanto que foi a que contribuiu mais para o crescimento".

Isso é o que o setor entrega quando funciona. O problema é o que está acontecendo com ele agora.

A tempestade perfeita já chegou

Enquanto os dados de 2025 celebravam recordes de produção, outra realidade se consolidava nas fazendas brasileiras.

A crise não é conjuntural, é uma sobreposição de fatores estruturais que criou aquilo que produtores, parlamentares e até o próprio governo reconhecem como uma "tempestade perfeita". São cinco vetores simultâneos, e cada um deles, sozinho, já seria capaz de pressionar o setor. Juntos, formam uma combinação explosiva.

1. Juros elevados e crédito inacessível na prática

A Selic em 15% transforma qualquer financiamento em fardo. Embora o Plano Safra 2025/2026 apresente valor nominal superior ao da safra anterior, o impacto positivo não se materializa, pois as taxas de juros elevadas comprometem a viabilidade econômica de muitas lavouras diante de um cenário de custos altos e queda nos preços das commodities. Para quem não se enquadra nas linhas subsidiadas, o produtor que recorre ao crédito livre paga entre 18% e 28% ao ano, em vez dos 8,5% a 14% do Plano Safra. Crédito disponível no papel não é crédito acessível na prática.

2. Alta do custo dos insumos

A estrutura de custos do campo foi radicalmente alterada nos últimos anos e não voltou ao normal. Os fertilizantes representam aproximadamente 30% do custo total de produção e estão 53% acima dos níveis pré-pandemia. O MAP (fosfatado) está 91% mais caro em 2024 do que em 2020, e a tendência para 2026 é de nova alta. O resultado é direto: na safra 2023/24, o custo de produção da soja no Cerrado chegou a R$ 10,59 mil por hectare, enquanto a receita bruta foi de apenas R$ 8,2 mil por hectare e a margem bruta despencou de 62% em 2021 para 13% em 2024.

3. Queda nos preços das commodities

Produzir mais e ganhar menos: essa é a equação perversa que o campo enfrenta. Após o superciclo de preços elevados que impulsionou investimentos e expansão de área, a correção veio com força. Soja, milho e algodão operam em patamares significativamente abaixo dos picos recentes, enquanto os custos de produção permanecem estruturalmente elevados. A combinação destrói margens e inviabiliza o serviço da dívida para produtores que se alavancaram no ciclo anterior.

4. Diesel, frete e logística pressionados

O Brasil produz no interior e exporta pelos portos. Esse trajeto tem custo, e ele não para de subir. O diesel, após os choques recentes, ainda pressiona o custo do transporte de insumos e da produção até os terminais. A infraestrutura logística insuficiente amplifica o problema: o chamado "Custo Brasil" corrói a competitividade do produtor mesmo quando ele é eficiente dentro da porteira.

5. Endividamento crescente e colapso do crédito

É o resultado de todos os elementos anteriores somados ao tempo. A inadimplência no crédito rural subiu de 1,2% em julho de 2024 para 3,3% em novembro de 2025, e ao incluir operações em atraso, prorrogadas e renegociadas, o índice supera 15,2%, equivalente a R$ 123,5 bilhões em situação de estresse. Os pedidos de recuperação judicial explodiram: em 2025 foram 1.990 registros, uma alta de 56% em relação a 2024. Um produtor endividado não acessa novo crédito. Sem crédito, não planta. Sem plantio, não há safra. Sem safra, o PIB de 2027 sente.

O Plano Safra 2025/2026 e seus limites

O governo lançou o Plano Safra 2025/2026 em julho passado com R$ 516,2 bilhões, sendo R$ 414,7 bilhões destinados às linhas de custeio e comercialização e R$ 101,5 bilhões para investimento. No papel, é um programa robusto. Os recursos contratados entre julho de 2025 e fevereiro de 2026 somaram R$ 354,4 bilhões, crescimento de 7% em relação ao mesmo período da safra anterior.

Mas o crescimento nominal esconde uma contradição real: no primeiro semestre do Plano Safra 2025/26, a concessão de financiamentos recuou 15%, em ambiente marcado por juros elevados e maior cautela na originação. O crédito existe no orçamento; chegar até o produtor é outra história.

O elo entre o Plano Safra e o PIB de 2027

As decisões de plantio, compra de insumos, renovação de maquinário e expansão de área que serão tomadas com base nas condições do próximo Plano Safra afetarão diretamente a produção 2026/2027, cujos resultados aparecerão no PIB de 2027. E o cenário é de atenção: a mediana do relatório Focus projeta crescimento do PIB brasileiro de apenas 1,77% para 2027.

O próprio Ministério da Fazenda alerta que a maior probabilidade de ocorrência de El Niño na segunda metade do ano e o prolongamento do choque nos preços de fertilizantes são vetores que podem impactar a safra de 2027 e pressionar a inflação de alimentos.

Isso significa que o próximo Plano Safra não pode ser apenas um instrumento de crédito: precisa ser uma resposta estrutural à crise de endividamento.

O governo reconheceu isso ao incluir no Plano Safra 2025/2026 medidas para facilitar a renegociação de dívidas, oferecendo mais flexibilidade para os produtores reorganizarem seus passivos e retomarem o fluxo produtivo. O próximo ciclo precisará ir mais longe.

O agronegócio não é apenas um setor produtivo, é uma âncora macroeconômica. É ele que equilibra a balança comercial, segura a inflação de alimentos, garante emprego no campo e dinamismo nas cadeias industriais. O setor é responsável por 26% de todos os empregos do país.

Um produtor que entra em recuperação judicial em 2026 não planta em 2027. Uma lavoura sem acesso a crédito adequado neste ciclo não contribui para o PIB do ano que vem. A relação entre política agrícola e crescimento econômico não é metáfora, na verdade é causalidade direta.

O Plano Safra 2026/2027 precisa endereçar a crise de endividamento com inteligência financeira; precisa ofertar crédito que seja efetivamente acessível, não apenas nominalmente disponível; precisa combinar condições adequadas de juros com mecanismos robustos de seguro rural e gestão de risco.

O Brasil cresceu em 2025 puxado pelo agro. Para crescer de forma sustentável em 2027, o país precisa garantir que o campo chegue a essa data com produtores capitalizados, não endividados. O Plano Safra é o instrumento. A janela para acertar está se fechando.