Gilvan Bueno
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Gilvan Bueno

Especialista em finanças, mercado de capitais e educação financeira. Foi sócio e gerente educacional no mercado financeiro. Trabalhou em bancos de investimentos e corretoras. Foi palestrante no Fórum Global South Financiers 2025, realizado em Beijin, China.

A convenção de Warren Buffett sem Buffett: 10 pontos para entender Omaha

Primeira assembleia da Berkshire Hathaway sem o maior de todos os tempos no comando traz questões que todo investidor deve ficar atento

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Cheguei ao CHI Health Center, em Omaha, às seis da manhã. Nos últimos anos, a essa hora, a fila dobrava o quarteirão e a competição era pelos melhores assentos para ver, de perto, o homem que reinventou o conceito de "investir para o longo prazo". Neste sábado, 2 de maio, a fila simplesmente não estava lá.

Caminhei pela feira de exposições das empresas investidas: Brooks Running, See's Candies, Dairy Queen, Geico, BNSF, NetJets. Logo percebi um silêncio incomum. Não havia disputa por souvenirs, nem aquela energia quase religiosa de Woodstock dos Capitalistas que a imprensa mundial canonizou ao longo de seis décadas. Quando subi para a parte mais alta da arena, a vista entregou a cena mais simbólica do dia: cadeiras vazias. Muitas. A arena, que já recebeu mais de 40 mil acionistas, estava pouco mais da metade cheia.

Foi a primeira assembleia da Berkshire Hathaway sem Warren Buffett no comando. E o vazio dizia mais sobre o momento do mercado do que qualquer linha do balanço.

A seguir, os dez pontos que considero indispensáveis para qualquer investidor, seja brasileiro ou global, que precisa entender o que mudou (e o que não mudou) na holding mais observada do planeta.

1. A era Greg Abel começou - e ela é técnica, não folclórica

Buffett cedeu o cargo de CEO em janeiro, mas permaneceu como chairman e fez comentários da plateia. No palco, quem conduziu foi Greg Abel, acompanhado de Ajit Jain (seguros), Katie Farmer (BNSF) e Adam Johnson (NetJets e varejo). A piada folclórica, a tirada de Munger, o improviso filosófico, saiba que tudo isso saiu de cena. Entrou um discurso operacional, detalhado, quase pragmático demais para os padrões emocionais do evento. É um sinal: o evento da Berkshire deixou de ser teatro e voltou a ser empresa.

2. US$ 397 bilhões em caixa

Abel abriu o Q&A respondendo a uma pergunta sobre por que segurar a ação da Berkshire no longo prazo. A resposta foi direta: o caixa de US$ 397 bilhões em dinheiro e Treasuries garante "liberdade de movimento" e a postura de "não estar refém de ninguém".

Em seguida, reforçou: "Não estamos ansiosos para alocar capital em oportunidades subpar." Para o investidor que olha apenas um pedaço da foto, leia-se o retorno trimestral, e não foto inteira, é uma aula de paciência institucional.

3. "Mercados são uma igreja com um cassino anexo"

A frase do dia veio de Buffett, em entrevista a Becky Quick, da CNBC. Ele comparou o mercado a uma igreja com cassino anexo, distinguindo o investimento de valor da febre por opções de curtíssimo prazo e mercados de previsão.

A sentença completa é definitiva: "Comprar opções de um dia não é investir, não é especular, é jogar." E concluiu: "Nunca tivemos pessoas em um clima mais de aposta do que agora."

Buffett ainda comentou o caso, em curso na Justiça americana, do soldado dos EUA acusado de usar informação confidencial sobre uma operação militar na Venezuela para ganhar US$ 400 mil em mercado de previsão. O recado foi claro: a fronteira entre investimento e jogatina nunca esteve tão fina.

4. O deepfake do próprio Buffett abriu a sessão

A primeira "pergunta" do Q&A veio em vídeo e sabe de quem foi, uma versão deepfake de Buffett, gerada por IA, indagando por que os investidores deveriam manter as ações da Berkshire. Foi um teatro deliberado, e funcionou.

"É assustador", disse o próprio Buffett mais tarde, lembrando que a tecnologia já permite criar versões falsas e convincentes de líderes mundiais com armas nucleares. A Berkshire, conhecida pelo conservadorismo tecnológico, escolheu o palco mais visível do ano para colocar o risco cibernético em primeiro plano.

5. "Não vamos fazer IA pelo simples fato de fazer IA"

A frase é de Abel e merece destaque num momento em que Snap, Atlassian e até a Allbirds citam IA para justificar demissões ou pivôs estratégicos. A Berkshire não vai entrar nessa onda por marketing.

Abel sinalizou aplicação "estreita em escopo e focada em criar proposições de valor". É a velha disciplina de Buffett vestida de tecnologia: só investir no que se entende.

6. Estreito de Hormuz: a Berkshire topa segurar navios, mas se o preço pagar

Aqui o assunto cruzou diretamente com o que venho cobrindo na CNN Brasil há semanas. O VP da operação de Seguros da Berkshire; Ajit Jain, foi questionado se a Berkshire seguraria navios atravessando o Estreito de Hormuz no contexto da guerra Irã-Israel-EUA.

A resposta sintetiza tudo o que se precisa saber sobre o mercado de seguros globais hoje: "Depende do preço." Jain acrescentou que há capacidade no mercado para absorver o risco, mas exigiu duas condições: prêmio compatível e escolta da Marinha americana.

Para uma das principais artérias do petróleo mundial, isso é precificação geopolítica em estado puro.

7. Petróleo a US$ 100 já machuca o consumidor americano

Adam Johnson, que comanda agora 32 negócios de varejo e consumo da Berkshire, foi explícito: os períodos de petróleo a US$ 100 o barril já reduziram a demanda em produtos de consumo e varejo.

O recado importa para quem investe em consumo discricionário globalmente e para o investidor brasileiro que precisa entender que a Petrobras e o Ibovespa não vivem em ilha. O óleo caro fortalece a receita de exportadoras de commodities e comprime simultaneamente o consumidor final, em qualquer lugar do mundo.

8. Lucro mais que dobrou e a Geico voltou a entregar

O resultado do primeiro trimestre foi forte: o lucro da Berkshire mais que dobrou. A unidade de seguros que inclui a Geico reportou lucro de subscrição de US$ 1,7 bilhão, ante US$ 1,34 bilhão no mesmo período do ano anterior.

BNSF, utilities e manufatura também avançaram, embora Abel tenha admitido que a BNSF ainda está atrás dos pares no setor ferroviário americano. Tradução: a máquina operacional segue funcionando e isso, num momento em que o S&P 500 vive de promessas de IA, é diferenciação.

9. Sem desinvestimentos, sem fragmentação

Acionistas vêm pressionando, há anos, por uma eventual cisão da Berkshire a tese clássica de que a soma das partes valeria mais separada. Abel descartou. "Somos um conglomerado, mas somos um conglomerado eficiente. Não temos camadas de gestão."

Acrescentou que, quando a Berkshire compra uma empresa, é "para sempre" exceto em casos de relações trabalhistas insolúveis ou riscos reputacionais graves. É a filosofia Buffett mantida em texto e tom por seu sucessor.

10. As camisas de Buffett e Munger foram penduradas no teto

O momento mais emocionante do dia foi simbólico. Abel anunciou a aposentadoria das "camisas" de Buffett e Munger, que ficarão eternizadas nas vigas da arena, em homenagem ao estilo das franquias esportivas americanas. Munger morreu em 2023. Buffett, aos 95 anos, estava ali, sentado com os outros conselheiros.

Em outro momento, pediu a Tim Cook — o CEO da Apple também em transição de saída que "desse um aceno". Foi a sucessão olhando para a sucessão. E foi o trecho mais humano de uma reunião que, em tudo o mais, virou estritamente corporativa.

O que levo de Omaha para o investidor brasileiro

A primeira assembleia sem Buffett no comando confirmou o que muitos suspeitavam: a Berkshire entrou em uma nova era, mais técnica e menos folclórica, e isso é racional para uma holding de quase um trilhão de dólares em ativos. Mas três mensagens precisam ser internalizadas por quem investe daqui:

Primeiro, paciência institucional virou ativo escasso. Em um mercado em que opções de um dia movimentam volumes recordes, manter US$ 397 bilhões em caixa esperando o ativo certo é uma declaração de princípios e um lembrete de que disciplina de alocação ainda é a vantagem competitiva mais durável que existe.

Segundo, a geopolítica voltou a precificar tudo. Hormuz, petróleo a US$ 100, guerra no Oriente Médio não são manchetes, são variáveis no spreadsheet. A Berkshire está dizendo, em linguagem de seguros e de consumo, que o mundo de 2026 é estruturalmente mais caro para quem ignora o mapa.

Terceiro, o "humor de cassino" descrito por Buffett é também uma característica do investidor brasileiro contemporâneo, especialmente o varejo que entrou no mercado entre 2020 e 2024. A frase "comprar opção de um dia não é investir" precisa ser lida pelo investidor que opera na B3 com a mesma seriedade com que é lida em Wall Street.

Saí da arena com uma certeza: o teatro acabou, mas a tese permanece. E talvez essa seja a maior herança que Buffett podia deixar uma cultura forte o suficiente para sobreviver à sua própria ausência.

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