Gustavo Uribe
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Uribe tem duas paixões: política e café. Cobriu 4 presidentes e 4 eleições presidenciais. E acorda todo dia às 5h da manhã para trazer em primeira mão os bastidores do poder

A metamorfose de Arthur Lira e o pecado original

Jogada arriscada do presidente da Câmara na eleição de 2022 tem reflexos até hoje na sua relação com Lula

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Arthur Lira fez uma jogada arriscada, que surpreendeu até mesmo deputados de seu grupo político.

O presidente da Câmara dos Deputados decidiu, em junho de 2022, subir ao palco da convenção nacional do PL e se sentar na primeira fileira com uma camiseta com a inscrição “Bolsonaro 22”.

O recomendado era que, assim como outros políticos do Centrão, Lira comparecesse ao evento de maneira discreta, de preferência se sentando nas últimas cadeiras.

Um aliado, na época, reconheceu que o experiente político que personificava o pragmatismo do bloco do Centrão cometeu o pecado político da ansiedade.

Um pecado pelo qual, na visão de dirigentes petistas, Lira paga até hoje — e que explica a distância política que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém do presidente da Câmara dos Deputados.

Lira até tentou se redimir da jogada precipitada. O presidente da Câmara dos Deputados foi a primeira autoridade a reconhecer a vitória do petista, minutos após declarado o resultado oficial.

Lira também procurou colaborar com a pauta econômica e ajudou a articular a entrada do PP e do Republicanos na Esplanada dos Ministérios e no comando da Caixa Econômica Federal.

Ainda assim, os acenos feitos até agora não foram suficientes. Em conversas reservadas com aliados, Lula sempre admitiu ter pé atrás com Lira.

Não é à toa que, mesmo insatisfeito com a articulação política e com o veto a emendas parlamentares, Lira deixou claro, na última segunda-feira (5), que a pauta legislativa não será afetada.

Em seu último ano no comando da Câmara dos Deputados, Lira precisa fazer um sucessor de confiança para continuar com prestígio político e poder no bloco do Centrão.

E um apoio político do Palácio do Planalto ao seu candidato, reconhecem líderes partidários, aumenta as chances de vitória.

Além disso, aliados do deputado dizem que ele tem pretensão de sair candidato ao Senado por Alagoas em 2026.

Em 2022, o apoio de Lula a Renan Filho, adversário político de Lira, ajudou na eleição do hoje ministro dos Transportes ao Senado. “Um apoio de Lula daria força para uma candidatura de Lira a senador”, reconhece um experiente líder do centrão.

Para isso, diz um assessor palaciano, Lira precisa ser mais Benedito que Arthur. Menos ansioso e mais estratégico. Mais cordial e menos impulsivo, definiu o auxiliar do petista.

Apesar de ter feito carreira na Arena (partido de sustentação do regime militar) e no PFL, o pai de Arthur, Benedito de Lira, apoiou Lula nos dois primeiros mandatos e o defendeu durante o mensalão, conquistando a confiança do petista.

Em entrevista logo após a vitória de Lula, Benedito colocou panos quentes. Diplomático, disse que não considerava haver obstáculo entre Arthur e Lula. “O Arthur não é radical”, resumiu.

Para Lula, diz um amigo do presidente, não basta que Arthur não seja radical. Ele precisa provar ao petista que é um aliado.