Análise: Lula escorrega no início, mas devolve armadilhas e empareda Flávio
Presidente sofre baque inicial com perguntas sobre lobista Roberta Luchsinger e filho; senador do PL deixa questionamentos sobre escândalos do Master sem resposta
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escorregou em armadilhas colocadas pelo adversário Flávio Bolsonaro (PL) durante o debate na Band neste domingo (18).
Recém-saído da liderança no primeiro turno, Flávio partiu para o ataque logo no primeiro bloco, desestabilizando Lula com ataques sobre o filho Fábio Luís, o Lulinha, e a entrevista da lobista Roberta Luchsinger, dada na véspera à CNN Brasil.
O tema da pergunta de Lula no primeiro momento de interação entre os dois era licença-maternidade, mas Flávio preferiu sacar de antemão a carta sobre Roberta e inaugurar o baixo nível de civilidade dos candidatos que marcou as quase duas horas de enfrentamento.
Na insistência sobre o tema em um dos momentos mais tensos da noite para Lula, o petista ajustou a resposta ao falar sobre a lobista pela primeira vez após ser duramente atacado por ela.
"Roberta é uma questão da Polícia Federal", afirmou. Em outras ocasiões, o presidente chamou a lobista de "pilantra", o que foi lembrado por ela por diversas vezes na conversa com a CNN no sábado (17).
Flávio também mostrou logo na largada a estratégia de circular atrás de Lula durante as respostas do petistas. Lembrou o pai, Jair Bolsonaro, no mesmo palco em 2022. O método infantil da desestabilização e que provocou queixas de aliados de Lula que estavam na plateia.
Lula e Flávio oscilaram na posse de bola e no controle da narrativa no primeiro confronto direto da eleição de 2026.
Passado o turbilhão inicial, Lula conseguiu se recuperar ao confrontar Flávio com pedido de explicações sobre a relação do senador com o ex-banqueiro do Master.
O petista insiste em ter uma resposta sobre o dinheiro pedido em um áudio pelo senador a Daniel Vorcaro. Flávio não consegue explicar, não dá resposta ao eleitor, rebate com mais ataques e isso é explorado por Lula. Foi treinado para sair pela tangente.
"Ele melhorou muito para mentir", afirmou Lula.
Lula faz um gol contra, no entanto, ao explorar o estereótipo do "carioca malandro". A campanha de Flávio saca isso e usa contra o petista na volta do intervalo comercial. Ponto para Flávio em um estado já dominado por ele, mas onde a campanha de Lula tem tentando ampliar votos.
"Eu, antes de responder, só quero aqui me solidarizar com todos os meus irmãos e irmãs do Rio de Janeiro, que foram aqui chamados de malandros pelo meu concorrente", disse Flávio.
Momentos depois, Lula aposta no tema da saúde para evocar a memória da gestão do governo Bolsonaro durante a pandemia do coronavírus, que deixou um saldo de 700 mil mortes no país e críticas sobre o legado de negligência governamental com a compra de vacinas. É quando Lula consegue extrair de Flávio a confissão de que a administração do pai não foi exitosa na gestão da covid-19.
"De fato, a saúde não foi uma área que a gente teve o melhor resultado no governo do presidente Bolsonaro. Eu faço aqui esse mea culpa. Tivemos uma pandemia, dois anos de pandemia, uma coisa nova, que não sabíamos como enfrentar", afirmou Flávio.
Flávio, ainda assim, usa o tema para provocar Lula ao falar das vacinas durante a pandemia. "Tem bolsonaro dentro do Lula", ironiza.
O senador tentou se recuperar ao falar do tema da saidinha de presos, que foi reativado pela articulação bolsonarista no Congresso Nacional, após um veto de Lula. O presidente defendeu o benefício, após Flávio introduzir o tema ao citar um caso de homicídio cometido por um preso durante a saidinha.
"Se a pessoa tiver tido um comportamento decente, se a pessoa estiver se recuperando, é justo que a pessoa saia para ver sua família", disse Lula.
Na economia, Flávio apostou no discurso de Ministério da Prosperidade e fazer acenos sobre renegociações de dívidas. Lula falou da valorização do salário mínimo e reconhece que o custo de vida está alto, mas rebate dizendo que no governo Bolsonaro estava pior e cita os efeitos das guerras.
"Ele conhece ônibus por literatura por que ele nunca entrou num ônibus. Conhece trabalhador por literatura. Ele nunca trabalhou", diz Lula ao defender o fim da jornada 6x1.
O tema sensível para Flávio provocou um retomada do candidato por contra própria ao assunto. É quando justifica a mudança de posição sobre a pauta durante a votação da PEC no Senado na semana passada.
"Eu sou uma pessoa que, se for convencida, posso melhorar a minha opinião, se isso for melhor também para os cidadãos brasileiros", afirma.
O petista tentou dar um xeque mate em Flávio ao propor a abertura do sigilo bancário e telefônico dos dois candidatos. O senador só rebateu ao dar a entrevista final à equipe da Band, ainda no palco do debate, e falar que Lula não tem celular.
No lugar de respostas durante o debate, cada um falou o que quis em um embate de troca de ataques e que fala mais para a própria bolha do que para os brasileiros indecisos e que ainda buscam motivos para ir às urnas no dia 25.
O poder de definição do debate junto ao voto desse eleitorado ficará a cargo do potencial de "cortes" a serem explorados nos próximos dias nas redes sociais.
O tom propositivo ficou praticamente do lado de fora de um estúdio dominado por tensão e bate-boca entre dois candidatos com alto nível de rejeição entre a população.
Lula apostou em experiência e em conhecimento do funcionamento da máquina. Flávio apostou em desestabilizar Lula e em surfar em temas de maior conforto, como segurança pública.



