Audiência sobre tarifaço tem tom mais técnico e reduz crítica ao Brasil
Narrativa profunda e até defesa dos pares americanos dos produtos agrícolas do Brasil sinalizam menor tensão entre setor privado

Durante as primeiros cinco horas de audiência do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (em inglês, United States Trade Representative), os americanos deram um tom mais técnico, com perguntas profundas e embasadas no impacto econômico da entrada de produtos do agro brasileiro sem e com taxas.
Como isso pesa na indústria americana e chega até o consumidor final? Como é o processamento industrial desse produto?
Estas duas questões marcaram a primeira parte da audiência, que começou nesta segunda-feira (6) em Washington, evidenciando que a representação americana também mudou de perfil em relação à primeira audiência pública realizada em 2025, na ocasião do primeiro anúncio de tarifas feito por Donald Trump.
"Há uma diferença de perfil. Foi construída uma narrativa, uma explicação para que haja um entendimento maior sobre a agregação de valor e o papel da indústria dos EUA tem sobre a estabilidade de preço ao consumidor americano", afirmou ao CNN Agro o diretor-executivo do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), Marcos Matos.
O representante participa da audiência até a terça-feira (7), quando os painéis serão mais voltados às questões políticas, como o caso do Pix. Até agora, frisou Matos, o clima é de menor tensão entre a iniciativa privada e "régua mais elevada" do debate.
Por lá, representantes de entidades agropecuárias do Brasil estavam com argumentação "na ponta da língua" para justificar a importância do produto brasileiro na economia dos americanos. A inflação de alimentos foi uma das justificativas para pedir a isenção de sobretaxas, contaram fontes.
“Comparado com setembro do ano passado, foi muito mais equilibrado. A gente sentiu, da parte dos representantes do comércio, da agricultura, do Tesouro, do trabalho e da área de saúde e bem-estar, pessoas mais seniores. Então as perguntas foram mais técnicas, mais profundas, mais voltadas para aspectos de competitividade, da agregação de valor para a indústria dos Estados Unidos, para a questão do consumidor e dos preços ao consumidor”, afirmou Matos.
Segundo o diretor do Cecafé, embora representantes da pecuária e do etanol tenham mantido um discurso mais crítico em relação ao Brasil, o saldo geral da audiência foi mais favorável ao país.
“Tivemos menos críticas ao Brasil. Obviamente, o pessoal da pecuária e do etanol veio com tons bem críticos sobre o impacto negativo para eles. Mas, em geral, muita gente defendeu o Brasil, inclusive contrapartes norte-americanas fazendo a defesa do país”, disse.
No painel voltado ao café, a discussão reuniu Cecafé, Abics (Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel) e a NCA (National Coffee Association), dos Estados Unidos.
De acordo com Matos, o foco das intervenções foi o pedido para que a USTR mantenha a isenção tarifária já proposta para cafés verdes, torrados e moídos, e amplie o benefício também ao café solúvel brasileiro.
“Nós pedimos primeiramente que fossem mantidas as isenções para os cafés verdes, torrado e moído, como foi proposto na resolução 931, e que isso também fosse ampliado para o café solúvel”, afirmou.
Segundo ele, boa parte das perguntas feitas pelos representantes americanos buscou entender justamente qual é a importância do café solúvel brasileiro para a indústria local e para a formação de preços ao consumidor.
Matos argumentou que o café solúvel brasileiro é um insumo relevante para a indústria de bebidas nos Estados Unidos, especialmente em segmentos de maior valor agregado.
“A gente falou muito que o café solúvel é a base para a preparação de bebidas importantes, com agregação de valor, como ready to drink, cold brew, e também bebidas voltadas para populações mais sensíveis à renda. Então ele atende diferentes públicos da população norte-americana”, disse.
“A ideia foi mostrar para eles que o café solúvel é um insumo importante para a indústria preparar diversos tipos de bebidas.”
Segundo o executivo, a participação conjunta de Cecafé, Abics e National Coffee Association ajudou a detalhar aos representantes da USTR como a cadeia do café está integrada entre Brasil e Estados Unidos e por que a manutenção das isenções pode ajudar a preservar competitividade, oferta e estabilidade de preços no mercado americano.
A investigação da Seção 301 segue em andamento até esta sexta-feira, quando devem ser concluídas as oitivas desta rodada.



