Clima e energia pesam mais sobre ativos e crédito no agro
Super El Niño e disponibilidade de energia afetam diretamente segurança alimentar, alertam economistas

Economistas estão de olhos atentos às oscilações climáticas, às projeções de intensidade do El Niño e a qualquer movimentação de países em meio a guerras e tensões geopolíticas. Esses fatores nunca pesaram tanto sobre os ativos, os mercados de crédito e a decisão de investimento das cadeias produtivas, especialmente a agropecuária.
Na última década, as cotações das commodities agrícolas, por exemplo, variavam fortemente de acordo com indicadores econômicos clássicos, como juros, câmbio e demanda global.
Apesar da influência natural do ritmo das colheitas, foi nesta década que os preços passam a se volatilizar cada vez mais em função do clima, da geopolítica e, mais recentemente, da energia.
A avaliação de analistas de mercado é que a segurança energética passou a ser também um componente da segurança alimentar.
Neste ponto, o agronegócio brasileiro sai em vantagem, especialmente pela liderança global na produção de biocombustíveis. O Brasil produziu mais de 37 bilhões de litros de etanol em 2025, entre milho e cana-de-açúcar, consolidando o combustível como peça estratégica tanto para a matriz energética quanto para o equilíbrio econômico do setor agrícola.
Antes, a transição energética era vista principalmente pelos países desenvolvidos como um investimento ambiental de alto custo. Mas o componente geopolítico mudou essa lógica.
A necessidade de reduzir dependência de petróleo e ampliar a segurança energética acelerou a corrida global por biocombustíveis. Países como a Índia, por exemplo, ampliaram fortemente sua produção e mistura obrigatória de etanol nos combustíveis.
Ao conectar clima, geopolítica e energia, o impacto direto recai sobre o preço dos alimentos. O tema mexe com popularidade política em anos eleitorais e amplia a pressão sobre governos e bancos centrais em torno do que fazer para conter a inflação.
Os três fatores — clima, geopolítica e energia — já interferem diretamente no ambiente “dentro da porteira” e pressionam a inflação brasileira a ponto de instituições financeiras revisarem suas projeções para índices acima do teto da meta.
É o caso do banco Pine, que revisou para cima sua projeção para o IPCA de 2026, para 5,6%, e para 2027, em 5%.
Caso o El Niño venha com intensidade maior, o cenário ainda pode piorar, algo que o próprio boletim Focus, termômetro do Banco Central, já vem sinalizando.
O problema atinge tanto as safras de grãos quanto a produção de alimentos frescos, com inevitável repasse de preços ao consumidor caso o cenário climático se confirme.
“O mundo convive com um ambiente de inflação mais alta e persistente, com juros mais elevados do que na década passada. No caso brasileiro, a inflação traz desafios adicionais porque o mercado de trabalho segue relativamente forte e a renda das famílias teve impulso nos últimos trimestres. Por outro lado, há dificuldades no processo de convergência inflacionária”, afirmou Cristiano Correia, economista-chefe do Banco Pine.
Durante evento da instituição financeira em São Paulo, o Pine Macro Day, Correia ressaltou que o risco geopolítico passou a exercer papel relevante para os bancos centrais ao redor do mundo, incluindo o brasileiro.
Dentro do quadro atual, ele acrescentou, fica mais difícil prever uma “calibração de juros”.
“As expectativas de inflação permanecem desancoradas. Com a guerra envolvendo o Irã, houve um salto nas expectativas para 2026”, destacou Nilton David, diretor de Política Monetária do BC.
Esse cenário afeta diretamente o acesso ao crédito pelo agronegócio, uma vez que juros elevados aumentam o custo de financiamento da produção e reduzem a capacidade de investimento do setor.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão para acelerar soluções voltadas ao endividamento rural e avançar, de forma definitiva, na renegociação das dívidas do campo.



