Isadora Camargo
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Isadora Camargo

É âncora do CNN Agro News. Jornalista há 15 anos em economia e negócios, é doutora pela USP e pela Universidade de Navarra; passou por Valor Econômico e Agência EFE.

No Brasil, biorrefinarias avançam em direção de mercados regulados

Hoje, país tem 110 biorrefinarias, porém, menos de um terço das unidades opera, de fato, no conceito completo de biorrefino

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O avanço das biorrefinarias no Brasil começa a redesenhar o mapa da indústria de base renovável, impulsionado por uma combinação de demanda internacional por descarbonização e maior rigor regulatório em mercados como Europa e Estados Unidos. O tema não é novo, mas nunca foi tão relevante, visto que as oscilações geoeconômicas expõem qualquer tipo de dependência - ou monopólio - de combustíveis fósseis.

Países da Europa não têm capacidade produtiva e precisam comprar combustíveis renováveis para aviação, enquanto empresas brasileiras ou instaladas no Brasil aceleram a extração e a produção de óleos vegetais capazes de escalar de forma alternativa à querosene, ao diesel, ao petróleo.

O agro deve ganhar muito com esta fatia de mercado, cujo retorno de investimento é de longo prazo, mas certeiro. Em geral, empresas que produzem biocombustíveis para mercados regulados negociam quase 100% de sua oferta antes de terem o produto final, e travam o preço sob demanda.

Culturas como soja, palma e macaúba entram no radar não apenas pelo potencial produtivo, mas pela capacidade de atender nichos de maior valor agregado, onde transparência, regularidade no fornecimento e conformidade socioambiental passam a ser determinantes para acessar os mercados mais exigentes.

Mais do que ampliar a oferta, a corrida pelas biorrefinarias reflete uma mudança de posicionamento das companhias, que buscam se antecipar a exigências como certificações ambientais e regras de origem, caso do regulamento europeu de produtos livres de desmatamento.

Por isso, grandes empresas têm voltado os olhos para matérias-primas agrícolas capazes de gerar óleos vegetais com rastreabilidade e menor pegada de carbono — insumos estratégicos que também podem servir como químicos verdes e ingredientes para a indústria alimentícia e cosmética.

A Acelen Renováveis é uma das companhias à frente deste mercado. A empresa vai investir US$ 3 bilhões na operação de sua biorefinaria em Mataripe, na Bahia, e está apoiando o governo estadual no mapeamento e na identificação de áreas adequadas para o cultivo de macaúba, com ênfase na estruturação de acordos para implementação de polos agroindustriais na região baiana.

A unidade compartilha a infraestrutura logística de escoamento com o terminal marítimo já existente, que abastece a refinaria da empresa que não é dedicada a biocombustíveis.

Hoje, o Brasil possui 29 plantas industriais de biocombustíveis mapeadas, das quais 110 são classificadas como biorrefinarias propriamente ditas, por atenderem critérios como integração de processos, uso de múltiplas matérias-primas e geração de coprodutos de maior valor agregado. O número foi divulgado em um estudo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em parceria com PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), divulgado há um ano.

O “raio-x” do estágio atual das biorrefinarias brasileiras mostra que o país tem uma base ampla de biomassa — distribuída em diferentes biomas — capaz de sustentar uma indústria relevante de bioprodutos e combustíveis sustentáveis. Porém, 11 — o que reforça o diagnóstico do estudo de que ainda há muito espaço para avançar em agregação de valor, circularidade e diversificação de produtos.

Oportunidade para agricultura familiar

No projeto com macaúba, a Acelen Renováveis decidiu estruturar o modelo de negócio envolvendo comunidades extrativistas e agricultores familiares. A ideia é dividir suas áreas de produção em 20% para agricultura familiar e outros 80% entre áreas próprias e em parceria com outros proprietários.

Os 20% da área total equivalem a 36 mil hectares, destaca Pedro Estrela, vice-presidente de Novos Negócios e Digital da companhia. A iniciativa, estruturada há quase dois anos, inclui o fornecimento de mudas, assistência técnica e garantia de compra da produção dos pequenos produtores.

A expectativa da companhia é que o modelo permita triplicar a renda média dessas famílias, além de ampliar a inclusão em regiões com baixa conectividade, com acesso, por exemplo, a soluções de digitalização no campo.

“Uma coisa que é única desse projeto é o desenvolvimento agrícola aliado à recuperação de terras degradadas, com potencial de exportar soluções de transição energética para mercados regulados. A macaúba é capaz de produzir um biocombustível que reduz em até 80% as emissões em comparação ao fóssil, com uma pegada de carbono equivalente à de resíduos, como o óleo de cozinha usado", detalha Estrela.

Segundo ele, o potencial do agro brasileiro de se reinventar e de trazer soluções para o mundo, ao produzir um combustível renovável com custo competitivo em relação ao fóssil se confirma no planejamento de negócios e no investimento da Acelen no Brasil.

Para a agricultura familiar, acrescenta, é uma forma de triplicar a receita após o desenvolvimento e primeira colheita do fruto da macaúba. Entre as particularidades da árvore, a companhia destaca o potencial de produzir SAF com custo comparável ao combustível fóssil, especialmente em regiões com condições favoráveis como o Brasil.

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