Chineses estão mais à frente das montadoras tradicionais do que se pensava
Salão de Pequim evidenciou que o abismo entre algumas marcas locais e montadoras tradicionais pode aumentar ainda mais
Os números do Auto Show Beijing, o Salão de Pequim, impressionam: 1.451 carros expostos, sendo 181 modelos de estreia mundial e 71 carros-conceito. Mas a 19.ª edição da mostra chinesa revelou muito mais do que carros inéditos ou apontamentos para o futuro: evidenciou que o abismo entre algumas marcas locais e montadoras tradicionais - do Ocidente e até do Oriente - é grandioso e pode aumentar ainda mais.
Um olhar rápido sobre os números do salão já indica uma diferença da nova ordem mundial do mercado automotivo. Entre os 1.451 carros expostos nos 380 mil metros quadrados do evento, apenas 71 eram conceitos.
Quem já tem uma certa rodagem em salões automotivos lembra que o futuro dominava os eventos. As montadoras aproveitavam o olhar dos jornalistas nas prévias e do público, durante a mostra, para avaliar indicações de design, novas tecnologias e outros aspectos dos carros-conceito.
Era um tipo de laboratório para as marcas traçarem os planos de médio e longo prazo. As estreias mundiais eram poucas e nunca superiores aos conceitos. E encontrar carros de produção à mostra era como achar um unicórnio. Tanto Pequim nesse ano, como Xangai em 2025, indicaram que a velocidade da indústria automotiva mudou e para sempre.
Nova ordem da indústria automotiva
Ficou claro que não dá mais para esperar oito ou dez anos para lançar numa nova geração de um carro. Não dá para soltar um conceito e esperar anos para torná-lo carro de produção. O relógio da indústria automotiva acelerou com os chineses.
Modelos que vimos como apontamento para o futuro no Shanghai Auto Show de 2025 já estão sendo vendidos em diversos mercados pelo mundo, inclusive o Brasil. Tecnologias de eletrificação que pareciam que iriam demorar anos para estrear já estão nas ruas.
Essa é a nova ordem mundial da indústria automotiva. Em dois anos tudo muda. Tecnologias avançam, a eletrificação acelera em ritmo alucinante, baterias ganham cada vez mais autonomia, sistemas de segurança protegem ainda mais e os carros que eram do futuro estão no presente.
As montadoras tradicionais precisam entrar no ritmo chinês para poderem acompanhar essa velocidade cada vez menor entre o conceito e o modelo de produção. Não tem outra fórmula.
Como acompanhar o ritmo dos chineses?
Uma alternativa para entrar no ritmo dessa dança frenética é fazer par com os chineses. Muitas montadoras tradicionais estão adquirindo ou fazendo joint venture (empreendimento conjunto, em tradução) com marcas da China para poderem entrar no passo da nova ordem.
E como fica o Brasil nessa engrenagem? Pelo que vi em Pequim, deixamos de ser coadjuvantes e viramos o “mercado-alvo” para as principais montadoras chinesas. Além das tantas marcas que já estão no país, pelo menos outras seis vão estrear em solo nacional ainda em 2026.
O brasileiro gostou desse ritmo acelerado dos chineses. Somos famintos por novas tecnologias porque por muitos anos fomos carentes nisso. Algumas montadoras renomadas “empurravam qualquer coisa” porque o brasileiro comprava. Mas isso mudou. O brasileiro sabe o que há de moderno porque isso agora está na prateleira dele. E com preço competitivo. É só “esticar o braço” e pegar.
Se algumas montadoras tradicionais insistirem em oferecer “quaisquer coisa” esperando que isso vá para as garagens brasileiras poderão ver esse abismo com os chineses aumentar ainda mais. O que ficou de positivo desse Salão de Pequim foi ver que algumas dessas gigantes centenárias da industria automotiva já acordaram e viram que precisam entrar na nova ordem mundial. Estão correndo atrás, mas podem muito bem se recuperar nessa maratona de alta velocidade.
*Bruno Vasconcelos colaborou com a coluna



