Free Flow: a tecnologia está pronta, mas o desafio ainda é o motorista
Sistema eletrônico precisa ser reconhecido como "amigo" do usuário
O pedágio do futuro está pronto para começar a funcionar no Brasil. Sem cancelas, sem filas e sem a necessidade de reduzir a velocidade, o sistema Free Flow representa uma das maiores transformações da infraestrutura rodoviária nas últimas décadas.
A proposta é simples: substituir as tradicionais praças de pedágio por pórticos equipados com câmeras e sensores capazes de identificar os veículos por meio da TAG eletrônica ou da leitura da placa, realizando a cobrança de forma automática. Para quem viaja ao exterior, vai lembrar do sistema nos Estados Unidos, por exemplo.
Na teoria, o modelo reúne todas as vantagens desejadas para aqueles que utilizam as rodovias. O fluxo de veículos se torna mais eficiente, as filas desaparecem, o consumo de combustível diminui e as emissões de poluentes são reduzidas, já que o motorista deixa de frear e acelerar constantemente nas áreas do pedágio.
A tecnologia também permitirá um ganho importante em segurança, eliminando pontos conhecidos por acidentes causados por mudanças bruscas de faixa e colisões traseiras. Geralmente isso acontece com os motoristas desatentos antes da faixa da cancela automática, mais um exemplo.
Outro benefício é a possibilidade de tornar a cobrança mais justa. Em vez de pagar uma tarifa fixa por uma área pedagiada, o usuário pode ser tarifado apenas pelo trecho efetivamente percorrido. É um conceito que aproxima o pagamento do uso real da infraestrutura, algo que já faz parte da rotina em diversos países.
Exemplos internacionais
Lá fora, o Free Flow deixou de ser novidade há muito tempo. Nos Estados Unidos, rodovias operam há anos sem cabines de cobrança, utilizando sistemas totalmente eletrônicos. Portugal também adotou esse modelo em diversas autoestradas, enquanto a Noruega integra pedágios, pontes e túneis em uma única plataforma de pagamento.
Na América do Sul, o Chile, especialmente na região metropolitana de Santiago, a cobrança eletrônica tornou-se parte natural da mobilidade urbana. Em todos esses casos, o motorista praticamente não percebe que passou por um pedágio.
O que barra essa tecnologia no Brasil?
No Brasil, porém, a principal barreira não está na tecnologia, mas na experiência do usuário. Muitos condutores ainda desconhecem o funcionamento do sistema, não sabem que precisam efetuar o pagamento quando não possuem TAG e encontram dificuldades para identificar a concessionária responsável ou o canal correto para quitar a tarifa. E primeiro, o usuário precisa ser atendido, antes de ser cobrado.
A identificação evitará as notificações por evasão de pedágio, situação que evidencia uma deficiência de comunicação muito mais do que uma falha tecnológica.
Também pesa contra o modelo a falta de integração entre as concessionárias. Cada empresa possui seus próprios aplicativos, sites e meios de pagamento, obrigando o motorista a navegar por diferentes plataformas.
Essa fragmentação contrasta com o que acontece em mercados mais maduros, onde a experiência é centralizada e praticamente transparente para o usuário.
O Free Flow não é o problema. Pelo contrário, representa um caminho sem volta para rodovias mais inteligentes, eficientes e sustentáveis. O desafio está em construir um sistema que seja tão simples para o motorista quanto já é para a tecnologia.
E me permita dizer que as campanhas educativas deverão ser mais eficazes, integração nacional dos meios de pagamento e processos que coloquem o usuário no centro da experiência, porque a inovação precisa ser percebida tanto para um adulto quanto para uma criança.



