Pix, 6x1 e democracia: os recados de Lula da ONU de olho na reeleição
Presidente defende soberania e combate a facções em críticas indiretas ao governo Trump: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu o discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas nesta terça-feira (22), falando ao mundo, mas olhando diretamente para sua campanha à reeleição.
A 12 dias do primeiro turno, a fala de cerca de 20 minutos foi recheada de acenos ao eleitorado brasileiro, com a defesa de sua gestão e de sua trajetória política, além de críticas indiretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de seu principal adversário na disputa pelo Palácio do Planalto, o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Ao longo do pronunciamento, Lula citou temas presentes na campanha, como a defesa do Pix, o combate às organizações criminosas, a exploração de minerais críticos e terras raras, o fim da escala 6x1, a distribuição de renda e o enfrentamento da violência contra a mulher. Também reforçou a defesa da democracia, das vacinas e da soberania nacional.
Ao se apresentar aos líderes mundiais, Lula afirmou ter enfrentado a ditadura militar, defendido o país de um golpe de Estado e retirado o Brasil do Mapa da Fome.
“Essa é a constatação de alguém que representa uma nação amante da paz e da liberdade. Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu seu país contra um golpe de Estado. É a convicção de um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome”, disse.
Soberania
A defesa da soberania permeou o discurso e incluiu críticas indiretas ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas sem citá-lo nominalmente.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento”, declarou.
Na sequência, Lula afirmou que a democracia voltou a ser ameaçada por interferências externas.
“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais.”
No contexto brasileiro, a declaração também mira a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Lula já o chamou de “traidor da pátria” por, segundo o presidente, atuar junto ao governo americano contra o Brasil.
Lula também vinculou a soberania à exploração das riquezas naturais brasileiras. Ao mencionar minerais críticos e terras raras, defendeu que o acesso a esses recursos tenha como contrapartida a geração de riqueza e a transferência de tecnologia para o país.
“Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro — e é em benefício dele que serão exploradas. O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais.”
Combate ao crime organizado
O presidente reagiu a pressão dos Estados Unidos, que recentemente classificaram as facções como Comando Vermelho e PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas, e disse que Brasil não precisa de porta-aviões em suas águas, mas de cooperação internacional para interromper o fluxo de armas e dinheiro destinado ao crime.
“Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou.
Lula citou a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, os recordes de apreensão de drogas, bens e recursos ilícitos e a aprovação da Lei Antifacção. A segurança pública e a corrupção são temas importantes para os brasileiros nesta eleição.
“Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime. A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime organizado penas superiores às previstas para o terrorismo”, disse.
Defesa do Pix
Em outro trecho dirigido ao eleitor brasileiro, Lula defendeu o Pix e acusou empresas estrangeiras de pressionarem pela privatização do sistema de pagamentos.
“Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros.”
O presidente também apresentou os pilares econômicos e sociais de sua campanha. Defendeu a distribuição de renda, a valorização dos salários, a ampliação do crédito e a manutenção de uma rede de proteção social.
“É possível colocar o pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte. É necessário cortar privilégios e investir em educação e saúde gratuitas e de qualidade”, disse o Lula, cuja campanha passou a reforçar que a família Bolsonaro governa para milionários.
Fim da escala 6x1
Outra bandeira eleitoral levada à ONU foi o fim da escala de trabalho 6x1. Lula afirmou que os trabalhadores precisam de mais tempo para descansar, se qualificar e conviver com suas famílias.
“No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6x1 para garantir ao trabalhador dois dias livres por semana”, disse.
O presidente relacionou a mudança à redução da sobrecarga doméstica das mulheres e também defendeu o combate ao feminicídio.
“Estamos construindo um Brasil onde as mulheres não precisam pedir licença para ocupar espaços de poder ou se inserir no mercado de trabalho. Um país livre do feminicídio, onde nenhuma mulher, dentro ou fora de casa, viva sob a ameaça da violência.”
Democracia x Negacionismo
Sem citar Bolsonaro, Lula ainda relembrou as mortes provocadas pela Covid-19 e criticou campanhas contra a vacinação.
“Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo descaso no enfrentamento da COVID-19. Campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças que julgávamos erradicadas.”
No encerramento, Lula tornou explícito o caráter eleitoral de sua mensagem. Afirmou que, em 4 de outubro, os brasileiros escolherão entre “democracia e negacionismo” e entre avançar para um futuro com mais oportunidades ou retornar a um “passado de exclusão”.
“Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha. Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e robusto”, afirmou.
Lula encerrou o discurso prometendo resistir a tentativas internas e externas de interferência na eleição.
“A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho.”


