"Não acreditamos que é o fim", diz palestino-brasileiro repatriado de Gaza
Hasan Rabee diz sentir alívio com cessar-fogo, mas avalia que o conflito só acaba com a criação do Estado Palestino
Integrante do primeiro grupo de brasileiros repatriados da Faixa de Gaza, em novembro de 2023, Hasan Rabee, de 34 anos, acompanha o noticiário sobre o cessar-fogo permanente com alívio, mas reticente quanto ao futuro no território onde nasceu.
“Até esse momento, a gente não acredita que isso é o fim. A gente que nasceu lá, foi criado lá, nunca viu o fim desse conflito. O fim verdadeiro seria só a criação de um Estado Palestino, não dependendo de Israel”, disse Hasan à CNN, palestino naturalizado brasileiro em 2019.
Durante o período em que estava em Gaza, Hasan relatava nas redes sociais e à imprensa brasileira o drama da guerra e a tentativa de escapar com vida dos bombardeios e da fome. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a fazer uma videoconferência com ele por dez minutos.
Desde outubro de 2023, 127 brasileiros e familiares foram retirados da Faixa de Gaza. No total, 1.572 pessoas que se encontravam em Israel, na Cisjordânia ou em Gaza foram retiradas da região pelo governo brasileiro.
Hasan, a esposa e as duas filhas pequenas, nascidas no Brasil, foram recebidos por Lula na Base Aérea de Brasília no dia 13 de novembro de 2023. Na ocasião, ele pediu que o presidente trouxesse os familiares que tinham ficado em Gaza.
Ao todo, 11 parentes de Hasan conseguiram viajar para o Brasil. A mãe e duas irmãs vieram em novos voos de repatriação da FAB (Força Aérea Brasileira); os outros oito parentes conseguiram deixar Gaza por meios próprios.
Atualmente, cerca de 30 familiares de Hasan — entre avós, primos e tios — ainda estão no território palestino. Eles perderam as casas e, durante todo o conflito, se deslocaram diversas vezes pela região. Agora, pretendem montar barracas sobre os escombros de Khan Younis.
De acordo com Hasan, um dos primos está entre os prisioneiros palestinos libertados por Israel na troca por reféns. Segundo ele, o parente não tinha ligação com grupos armados.
O saldo da guerra até aqui para Hasan — além da memória do horror que nenhum acordo de paz ou tempo apaga — são 65 parentes, amigos próximos e vizinhos mortos.
“Desde que fomos repatriados da Faixa de Gaza, a gente sempre acompanha o jornal e fala com nossos queridos lá — com nossos primos, tios e avós. Pelo menos agora estamos com esperança do fim da matança. Os grupos armados que atuam lá não representam o povo palestino”, afirmou o palestino-brasileiro à CNN.
Trabalhando como motorista em São Paulo desde que chegou ao Brasil, Hasan diz que é inimaginável pensar em retornar a Gaza em algum momento.
“Foi tudo destruído, é inacreditável. Não dá para pensar em voltar lá. Voltar aonde? Se 90% da população vive em tenda. Voltar para a Faixa de Gaza é uma esperança, mas quase impossível nesse tempo”, concluiu.



