Jussara Soares
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Jussara Soares

Em Brasília desde 2018, está sempre de olho nos bastidores do poder. Em seus 20 anos de estrada, passou por O Globo, Estadão, Época, Veja SP e UOL

Relação familiar entre Cid e Braga Netto pode desequilibrar acareação

General e tenente-coronel confrontam versões sobre trama golpista

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A acareação marcada para esta terça-feira (24), no Supremo Tribunal Federal (STF), entre o general Walter Braga Netto e o tenente-coronel Mauro Cid, assinala o reencontro de velhos conhecidos e pode desequilibrar o confronto de versões sobre a trama golpista.

A relação entre o ex-ministro da Casa Civil e da Defesa e o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL) vai além do governo e do Exército.

As famílias de ambos têm relação de amizade de longa data. Braga Netto conhece Cid desde criança, graças ao convívio com o pai do tenente-coronel, o também general Mauro Lourena Cid. As esposas dos generais também são amigas próximas.

A essa amizade familiar atribui-se o fato de Mauro Cid ter resistido em citar, em seus depoimentos, a participação de Braga Netto. O ex-ministro acabou preso em dezembro do ano passado, após o tenente-coronel ter apontado o general como um elo entre Bolsonaro e movimentos que queriam um golpe de Estado.

O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro também disse que Braga Netto tentou saber detalhes da colaboração por meio de contato com seu pai.

Cid foi orientado por sua defesa a repetir integralmente o que relatou à Polícia Federal e ao ministro Alexandre de Moraes, e a não ceder a uma eventual pressão de Braga Netto. Diferentemente dos interrogatórios, a acareação não será transmitida ao vivo.

Para militares, a "hierarquia e disciplina" do Exército também pode exercer uma pressão extra em Mauro Cid, assim como poderá ser usada por Braga Netto para desestabilizar o tenente-coronel durante o confronto de versões. Para integrantes da Força, aliás, é nisso que o ex-ministro aposta para desqualificar a delação.

Como mostrou a CNN, o confronto com Braga Netto é pior do que quando Cid, em março de 2024, teve de explicar ao STF o vazamento de um áudio em que criticava a investigação e saiu da audiência preso. O tenente-coronel passou mal na ocasião.

Aliados também avaliam que o momento será ainda mais tenso do que quando, em novembro de 2024, Cid depôs diretamente ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, para esclarecer omissões e contradições apontadas pela Polícia Federal. Foi nesse depoimento que o tenente-coronel mais implicou o general. Braga Netto foi preso dias depois.

Na acareação, dois pontos devem ser explorados pela defesa de Braga Netto. O primeiro é um dinheiro entregue em uma sacola de vinho por Braga Netto a Cid no Palácio da Alvorada.

O outro é uma reunião que teria ocorrido na casa do general, em novembro de 2022, para tratar do chamado "Punhal Verde e Amarelo", na qual teria sido discutido um planejamento para matar autoridades como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o vice Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro Alexandre de Moraes.

O general Braga Netto chegou a Brasília nesta segunda-feira (23) para participar da acareação, usando uma tornozeleira eletrônica. Foi a primeira vez que ele deixou a prisão, em uma unidade militar no Rio, desde que foi preso em dezembro do ano passado. Após a audiência no STF, deverá retornar para a prisão.