Leonardo Reis
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Leonardo Reis

Mestre em Linguística, empreendedor, autor e fundador da American English Academy, promovendo a inclusão através da educação

Vinicius Júnior e a falsa ideia de que falar bem é falar como se escreve

Entrevistas recentes do atacante têm viralizado nas redes sociais e levantado debate sobre a forma de ele se comunicar

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As entrevistas do jogador Vinicius Júnior têm despertado curiosidade nas redes sociais. Há quem observe que o atacante parece não colocar "ponto final" nas frases, construindo respostas longas e encadeadas. No entanto, essa percepção diz menos sobre o jogador e mais sobre a forma como costumamos avaliar a linguagem.

Muitas vezes, julgamos a fala pelos critérios da escrita. Esperamos frases organizadas, completas e perfeitamente delimitadas, esquecendo que a comunicação oral funciona de maneira diferente. Na fala espontânea, as ideias são construídas em tempo real, com pausas, reformulações e retomadas que fazem parte do processo natural de comunicação.

Por essa razão, é comum que as pessoas conectem pensamentos sucessivos sem a estrutura rígida que encontramos em textos escritos. Esse fenômeno não é um sinal de deficiência linguística, mas uma característica da oralidade presente em diferentes línguas e culturas. Basta observar alguns exemplos.

Em português, alguém pode dizer: "A gente treinou bastante essa semana e o professor passou confiança, e agora é continuar trabalhando para chegar bem no jogo". Na escrita, a mesma ideia provavelmente apareceria assim: "Treinamos bastante esta semana. O treinador transmitiu confiança ao grupo. Agora, precisamos continuar trabalhando para chegar bem ao jogo."

O mesmo acontece em espanhol. Na fala, é comum ouvir: "Hemos trabajado mucho y el equipo está bien y ahora tenemos que seguir así para el próximo partido". Já na escrita, a construção tende a ser mais segmentada: "Hemos trabajado mucho. El equipo está bien preparado. Ahora debemos mantener este nivel para el próximo partido."

Em inglês, a diferença também é evidente. Um jogador pode dizer: "We worked hard all week and everybody is confident and now we just need to keep going." Em um texto escrito, a mesma mensagem seria reorganizada da seguinte forma: "We worked hard throughout the week. The team is confident. Now we need to maintain our focus and continue improving."

No caso de Vinicius Júnior, existe ainda um aspecto frequentemente ignorado: o jogador tornou-se fluente em espanhol após anos vivendo e trabalhando na Espanha. Hoje, ele transita diariamente entre o português e o espanhol em entrevistas, compromissos profissionais e situações cotidianas. Dominar uma segunda língua nesse nível representa uma conquista significativa, que exige adaptação cultural, flexibilidade cognitiva e elevada competência comunicativa.

Estudos sobre bilinguismo mostram que pessoas que utilizam regularmente dois idiomas mantêm sistemas linguísticos em constante interação. Essa experiência pode influenciar escolhas linguísticas e formas de organização do discurso, algo natural para quem vive entre duas línguas e duas culturas.

Talvez, portanto, a discussão mais relevante não seja se Vinicius Júnior coloca ou não "ponto final" nas frases. O que merece destaque é o fato de um jovem brasileiro ter alcançado a capacidade de se comunicar com naturalidade em português e espanhol diante de uma audiência global, demonstrando uma competência linguística que vai muito além das regras da escrita.

E fica aqui uma provocação bem-humorada para o próprio Vini Jr.: depois de mostrar ao mundo que domina o português e o espanhol, que tal a próxima entrevista ser em inglês?