Aliados importantes dos EUA cancelam compras de armas americanas
Motivos são relutâncias de Trump de honrar compromissos de defesa mútua, guerra comercial e apoio a Israel

As hesitações de Donald Trump quanto aos compromissos de defesa mútua com a Otan, a guerra tarifária lançada pelo presidente americano e a manutenção do apoio militar maciço a Israel estão levando alguns dos aliados mais estratégicos dos Estados Unidos a cancelar ou ao menos reestudar a compra de armamentos americanos.
A Espanha, que chegou a considerar a compra de 50 caças F-35, decidiu abandonar o modelo americano. O governo espanhol optou por destinar 85% do aumento do orçamento de defesa para empresas nacionais e europeias.
As principais alternativas são o Eurofighter Typhoon, já em operação, projetos de próxima geração como o FCAS (Futuro Sistema Aéreo de Combate), desenvolvido em conjunto com a França e a Alemanha, além do Rafale francês e do Gripen sueco, adquirido pela Força Aérea brasileira.
O governo indiano também comunicou formalmente aos EUA que não tem mais interesse em adquirir o F‑35. A Índia está, como o Brasil, sob tarifa americana de 50%, dos quais 25% negociados com o governo Trump e os outros 25% como punição por importar energia da Rússia.
Em substituição, a Índia acelera o desenvolvimento de seus próprios projetos como o caça Amca (de quinta geração) e o multifunção Tejas Mk 1A. Além disso, abriu concorrência para produzir no país aeronaves como Rafale, Gripen e o russo Su‑57E, com transferência de tecnologia como pré-requisito.
A Índia reviu também planos de aquisição de veículos Stryker, mísseis Javelin e aeronaves Boeing P‑8I depois da imposição das tarifas americanas.
O Canadá, que além das tarifas é alvo do desejo de anexação por parte de Trump, também está revendo planos de comprar caças F‑35. O país assinou em junho um acordo histórico com a União Europeia para cooperação em defesa e compras conjuntas de armamentos, como parte do esforço comum por maior independência em relação aos EUA.
Até o Reino Unido, mais importante aliado dos EUA, vem debatendo uma estratégia de defesa mais autônoma, reduzindo seu uso de armas e sistemas controlados pelos EUA —incluindo o caça F‑35 e o sistema nuclear Trident — em favor de parcerias com França, Alemanha, Itália e Japão.
Muitos países também estão procurando reduzir a dependência de equipamentos e componentes militares americanos por causa da condução israelense da guerra na Faixa de Gaza. Itália, Espanha, Bélgica, Holanda, Canadá e Japão anunciaram esse como um motivo de distanciamento, e o Reino Unido discute ir no mesmo caminho.
Só entre o início da campanha israelense, desencadeada pelos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023, e setembro de 2024, os EUA forneceram US$ 18 bilhões em ajuda militar a Israel, além de outros US$ 5 bilhões em operações próprias, como os ataques aos Houthis no Iêmen, segundo levantamento da Universidade Brown. Ao comprar armas americanas, os países estão indiretamente financiando essa ajuda.



