Lourival Sant'Anna
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Lourival Sant'Anna

Analista de Internacional. Fez reportagens em 80 países, incluindo 15 coberturas de conflitos armados, ao longo de mais de 30 anos de carreira. É mestre em jornalismo pela USP e autor de 4 livros

Ameaças de Trump na Groenlândia e reações da Europa podem gerar crise grave

Trump dispõe de vários incentivos para seguir adiante, e os europeus, para não se deixar intimidar

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A ameaça de uma nova guerra tarifária lançada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para impor seu plano de anexar a Groenlândia, combinada com a reação europeia nos campos comercial e militar, pode levar a uma grave crise econômica e de segurança.

A consultoria Oxford Economics estima que, se Trump levar adiante a ameaça de impor tarifas de 25% aos produtos europeus, e se houver retaliação na mesma proporção, o PIB dos Estados Unidos e da Europa pode crescer um ponto percentual a menos. Já a economia mundial reduziria seu crescimento de 2,8% ou 2,9% para 2,6%.

Olof Gill, porta-voz da Comissão Europeia, afirmou que o bloco europeu pode responder às tarifas de Trump com um pacote de sanções comerciais equivalentes a US$ 108 bilhões, que havia sido preparado como retaliação quando o presidente americano lançou a guerra comercial em abril.

Além disso, pode ser acionado o Instrumento Anti-Coerção da União Europeia, que prevê o bloqueio do acesso de produtos americanos ao mercado europeu e também o controle de exportações de produtos estratégicos da Europa para os Estados Unidos. O instrumento foi criado em 2023 visando a China.

O Reino Unido, França e Alemanha, as três maiores potências econômicas e militares da Europa, decidiram enviar tropas para a Groenlândia, como forma de dissuadir Trump de uma invasão ao território autônomo pertencente à Dinamarca. Noruega, Suécia e Finlândia, vizinhas da Dinamarca, também enviaram tropas, assim como a Holanda, outro país próspero do norte da Europa.

Foi essa ajuda militar que levou Trump a ameaçar esses países com tarifas de 10% a partir de fevereiro e de 25% a partir de junho.

O primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, enviou mensagem a Trump queixando-se dessa ameaça de tarifas. Trump respondeu: “Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz, já não sinto a obrigação de pensar puramente na paz, embora ela sempre seja predominante, mas agora posso pensar sobre o que é bom e apropriado para os EUA. O mundo não está seguro a menos que tenhamos controle completo e total da Groenlândia”.

Essa mensagem indica que Trump age movido pelo ressentimento, uma emoção que já o levou a atuar de forma impulsiva em outras circunstâncias. Uma das crenças mais consistentes na trajetória de Trump é a de que os EUA devem impor seu desejo por meio de tarifas, já que seu mercado de alto poder aquisitivo é cobiçado por todos os países.

Trump cita como modelo de presidente William McKinley, que governou entre 1897 e 1901. Trump já elogiou publicamente McKinley por sua política tarifária protecionista e por ter ampliado o poder econômico e estratégico dos Estados Unidos. Ele associa esse período a uma fase de afirmação nacional e prosperidade industrial.

Durante o governo de McKinley, os Estados Unidos conquistaram novos territórios como resultado direto da Guerra Hispano-Americana de 1898. Pelo Tratado de Paris, a Espanha cedeu Porto Rico, Guam e as Filipinas aos Estados Unidos, marcando a transformação do país em uma potência marítima. No mesmo ano, os EUA anexaram o Havaí, consolidando a projeção americana no Pacífico.

Trump claramente deseja deixar um legado como um presidente que ampliou o território e o poder dos Estados Unidos, lançando mão da mesma combinação usada por McKinley: o poder comercial e militar.

Além disso, o presidente americano manifesta menosprezo pela Europa, que considera dominada por teses liberais e globalistas, em contraste com suas bandeiras conservadoras e nacionalistas. Ele já disse muitas vezes que a União Europeia foi criada para prejudicar os Estados Unidos.

Trump também não nutre grande apreço pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), da qual os EUA e todos os países envolvidos são membros. Ele afirma que a Otan serve para os europeus terceirizarem sua defesa aos EUA, em vez de esses países ricos assumirem suas responsabilidades.

Do lado europeu, os governantes estão convencidos de que não podem ceder nesse tema da Groenlândia, porque criaria um precedente de que os EUA, assim como outras potências militares, sobretudo China e Rússia, sentiriam que podem alcançar seus objetivos por meio da intimidação.

Todos esses incentivos e ingredientes sugerem que a crise da Groenlândia pode escalar para uma situação complexa e grave, trazendo instabilidade econômica e geopolítica.