Lourival Sant'Anna
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Lourival Sant'Anna

Analista de Internacional. Fez reportagens em 80 países, incluindo 15 coberturas de conflitos armados, ao longo de mais de 30 anos de carreira. É mestre em jornalismo pela USP e autor de 4 livros

Análise: Fatos atropelam intenção de Trump de "baixar a bola" do conflito

Presidente americano não encontra saída para o conflito no Estreito de Ormuz e tenta ganhar tempo até as eleições de novembro

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que está "baixando a bola" (low-keying) do conflito no Estreito de Ormuz e apenas "seminegociando" com o Irã. Trump acrescentou que deixaria a economia iraniana se deteriorar: "Estamos só assistindo o Irã com sua enorme inflação e o fato de que eles não têm dinheiro."

Foi uma reação à constatação, repetida ao menos 12 vezes, de que o otimismo do presidente sobre a aproximação de um acordo com o Irã não tinha respaldo na realidade. Toda vez que ele expressa esse otimismo, o Irã aumenta suas condicionantes para um acordo, de modo a extrair o máximo proveito da fragilidade da posição americana.

Agora, o governo iraniano só aceita abrir o Estreito de Ormuz se os EUA se comprometerem a não mais atacar e "insultar" o país, retirar suas forças militares da região, encerrar as agressões contra o Hezbollah, Hamas, Houthis e demais milícias patrocinadas pelo Irã, liberar os depósitos congelados, levantar as sanções e pagar reparação de guerra.

Depois dessa longa lista, Trump declarou que o Irã é que terá de pagar indenização pela suposta morte de 52 mil manifestantes iranianos e também de militares americanos, entre os quais o presidente incluiu o ataque — atribuído à Al-Qaeda, adversária do Irã, em outubro de 2000 — ao destroier USS Cole, que matou 17 marinheiros na costa do Iêmen.

A primeira intenção, de reduzir o perfil do conflito, espelha muito mais um desejo do presidente do que algo alcançável. Afinal, é impossível esconder do eleitorado americano os efeitos do conflito: a alta do preço da gasolina, a morte de 18 militares americanos, o fechamento do Estreito de Ormuz, que antes estava aberto, e o fracasso em atingir os objetivos da guerra relacionados ao programa nuclear iraniano e aos grupos armados por ele apoiados, sem falar na queda do regime.

A segunda parte, sobre a cobrança de compensação iraniana, é apenas uma tentativa de dar uma aparência de força à posição fragilizada de Trump: rebater com uma exigência, enquanto o adversário apresenta uma lista robusta de condições.

A realidade é que Trump não encontrou uma solução para o conflito. Para desfazer o controle iraniano sobre o Estreito, ele teria que desembarcar tropas e aceitar o risco de mortes de militares, algo intolerável para os americanos, numa guerra de escolha profundamente impopular. Por outro lado, aceitar o controle iraniano sobre o Estreito é aceitar a derrota.

Assim, esse impasse, acompanhado de declarações descoladas dos fatos, continuará no mínimo até as eleições de 3 de novembro, que renovarão toda a Câmara dos Deputados e um terço do Senado.