Depois de ataque performático do Irã, trégua depende de Israel
Netanyahu precisará do apoio de ministros ultranacionalistas para cumprir acordo proposto por Trump

Mais uma vez, a iniciativa está com Israel. O Irã fez um ataque apenas performático, não efetivo, contra bases americanas no Catar e no Iraque, de modo a registrar que retaliou contra os bombardeios a suas instalações nucleares, sem causar feridos nem danos e nem provocar uma escalada com os Estados Unidos.
O presidente Donald Trump entendeu o recado, agradeceu o Irã por ter avisado antes de atacar e o exortou a voltar à mesa de negociações. Mais tarde, Trump anunciou uma trégua entre Israel e Irã, que foi prontamente confirmada pelo regime iraniano, enquanto Israel estudava como reagir.
Fontes do governo israelense já vinham sinalizando ao correspondente da CNN Internacional em Tel Aviv, Jeremy Diamond, que o país estava próximo de alcançar os objetivos de sua ofensiva contra o Irã: retardar o programa nuclear iraniano e degradar significativamente o seu arsenal de mísseis balísticos.
O mais provável agora é que Israel observe a trégua pedida por Trump, pelo menos até concluir a avaliação dos danos causados ao bombardeio da instalação de Fordow, executado pelos Estados Unidos no sábado. E descobrir o destino dos 400 kg de urânio enriquecido a 60%, inventariados pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Os bombardeios iranianos com mísseis balísticos no território israelense foram uma retaliação contra a ofensiva aérea de Israel. Uma vez que Israel suspenda esses ataques, o Irã tem interesse em um cessar-fogo.
Ao longo de décadas, o regime em Teerã tem exercitado paciência estratégica, procurando evitar conflitos diretos com Israel e Estados Unidos, enquanto leva adiante seu programa nuclear.
O líder espiritual, Ali Khamenei, ainda não autorizou a construção de bombas nucleares, mas, se e quando ele ou seu sucessor o fizerem, os cientistas da Agência Atômica Iraniana querem estar prontos para atendê-lo em poucos meses.
Os ataques do Hamas de outubro de 2023 levaram Israel a intensificar os assassinatos e ataques militares seletivos contra posições iranianas na Síria e no próprio Irã, que reagiu com os lançamentos de mísseis e drones contra o território israelense.
Os ataques iranianos de abril e outubro do ano passado, no entanto, tinham sido performáticos. Depois que Israel lançou no dia 13 a ofensiva de larga escala, aí, sim, o Irã atacou com força total. A superioridade militar israelense ficou clara, mas os bombardeios iranianos perturbam a população de Israel.
Agora, os desdobramentos dependem, mais uma vez, da dinâmica política no interior do gabinete israelense.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu só se mantém no poder com o apoio dos partidos de dois ministros ultranacionalistas: Bezalel Smotrich, das Finanças, e Itamar Ben-Gvir, da Segurança Nacional.
Se eles tiverem ficado satisfeitos com os ataques israelenses ao Irã, Netanyahu poderá observar o cessar-fogo proposto por Trump.
O primeiro-ministro poderá ter de voltar à guerra com o Irã se surgirem novas ameaças a sua continuidade no governo, como a que ele enfrentava quando iniciou a ofensiva: o movimento dos partidos Shas e Judaísmo da Torá Unida de se retirar da coalizão e provocar a dissolução do Parlamento e a convocação de novas eleições, em protesto contra a convocação de ultra-ortodoxos para lutar na Faixa de Gaza.
Outra ameaça à estabilização é a intenção de Israel de manter o domínio sobre o espaço aéreo iraniano, como faz com a Síria e o Líbano. O regime iraniano resistirá a esse fato consumado, que põe em xeque sua soberania.



