Irã exige que EUA façam concessões para seguir com negociações
País quer o fim da guerra, mas com direito de enriquecer urânio e garantia de não voltar a ser atacado

“Os americanos precisam aprender que negociar é dar e receber.” Foi o que disseram fontes do governo iraniano, enquanto mantinham o suspense até mesmo sobre se compareceriam ou não às negociações em Islamabad, às vésperas do fim do cessar-fogo com os Estados Unidos, que se encerra na noite desta quarta-feira (22).
É provável que compareçam, mas até isso passou a ser parte do jogo de dar e receber que os iranianos querem jogar. Eles oferecem estender o período em que não poderão enriquecer urânio, entregar o urânio altamente enriquecido para um país amigo como o Paquistão e reabrir o Estreito de Ormuz.
Mas exigem contrapartidas, como o fim do bloqueio americano ao estreito e das sanções econômicas, o descongelamento de seus depósitos em contas no exterior e o abandono por parte dos americanos de posições maximalistas, como impedir para sempre que o Irã tenha um programa nuclear para fins pacíficos.
A dificuldade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de abandonar essa postura intransigente reside no fato, admitido por ele mesmo em um post em sua rede social, de que ele não pode, depois de tudo o que fez, chegar a um acordo parecido com o que o então presidente Barack Obama fechou com o Irã em 2015, e que ele rompeu em 2018.
O acordo previa que o Irã só poderia enriquecer 300 kg de urânio a 3,67%, suficiente para gerar energia, ao longo de 15 anos.
Por outro lado, Trump está cada dia mais pressionado pelo seu Partido Republicano, que vê os efeitos econômicos da crise energética desencadeada pela guerra no Irã reduzirem suas chances nas eleições de novembro, que renovarão toda a Câmara dos Deputados e um terço do Senado.
Os republicanos já precificam a perda da maioria na Câmara, até porque historicamente o partido do presidente sai derrotado em eleições de meio de mandato.
Entretanto, o preço do prolongamento dessa crise pode ser a maioria também no Senado. Isso deixaria o governo paralisado e o presidente vulnerável a um impeachment.
Esse dilema se reflete nas idas e vindas de Trump, que ora anuncia que um acordo está próximo, ora ameaça com a volta da guerra total contra o Irã. A primeira mensagem é para acalmar os mercados e os republicanos; a última para pressionar o Irã.
Mas nada disso muda a realidade no terreno: o Irã mantém a capacidade de bloquear o Estreito de Ormuz e de atacar seus vizinhos árabes aliados dos EUA e tem mais tolerância política à dor do que o governo americano.
O Irã deseja um acordo. Calcula-se que os bombardeios americanos e israelenses causaram prejuízos da ordem de US$ 200 bilhões, e o bloqueio americano asfixia a economia do país, altamente dependente das exportações.
Mas há duas coisas que o Irã deseja ainda mais do que o fim da guerra: não dar a impressão de que renunciou à sua soberania, o que inclui o direito ao programa nuclear e aos mísseis balísticos convencionais, e impor um custo elevado o suficiente para que não o voltem a atacar no futuro.



