Lula-Trump: Divergências sobre ações militares e meio ambiente afloram
O presidente americano tem a opção de tornar ou não os discursos do brasileiro obstáculos à reaproximação

Dois pontos importantes de divergência entre os presidentes Lula e Donald Trump emergiram nos últimos dias: os bombardeios de barcos no Caribe e no Pacífico Oriental, combinados com as ameaças americanas de intervenção militar na Venezuela, e os esforços para combater as mudanças climáticas, em contraste com as teses negacionistas.
Ambos eram virtualmente inescapáveis, considerando a importância que os dois presidentes dão para as suas posições nesses temas.
O Brasil tem uma vocação natural de líder da América Latina, e é esperado de seu governo uma manifestação sobre as incursões americanas no subcontinente.
Igualmente, o país é a sede da COP30 e uma potência ambiental.
Se a explicitação dessas divergências é inevitável, como controlar o seu dano nas relações com os Estados Unidos, quando finalmente Lula e Trump estabeleceram um canal de negociação sobre as tarifas de 50% impostas pelo governo americano aos produtos brasileiros?
A arte da diplomacia
A diplomacia é a arte de comunicar posições divergentes sem fomentar conflitos.
O segredo, portanto, está na forma. Desse ponto de vista, Lula se saiu relativamente bem.
A ida à cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe com a União Europeia em Santa Marta, na Colômbia, no domingo, foi um movimento arriscado.
O anfitrião, o presidente Gustavo Petro, trava uma guerra verbal com Trump. O presidente americano acusou o colombiano de envolvimento com o narcotráfico, sem apresentar provas. Petro acusou Trump de estar “contra a humanidade”, por seu negacionismo climático, além de protestar veementemente contra os bombardeios de barcos colombianos.
Lula teria uma boa desculpa para não ir: ele é o anfitrião da COP30.
Mas aparentemente considerou que, embora esvaziada, o Brasil, como líder da região, tinha de estar representado pelo seu presidente.
Os primeiros-ministros de Portugal e Espanha, assim como o presidente do Conselho de Ministros Europeu, também português, compareceram, em razão do vínculo histórico dos ex-colonizadores com a região.
Em seu discurso em Santa Marta, Lula rejeitou de forma contundente os bombardeios às embarcações e as ameaças ao regime venezuelano, assim como a volta da perspectiva de intervenções militares na região.
De fato, essas iniciativas de Trump são ilegais. Os fatos de os barcos serem suspeitos de narcotráfico e de o regime bolivariano ser autoritário e corrupto não dão a nenhum país o direito de atacá-los.
Trump republicou no domingo (9) em sua rede, Truth Social, uma reportagem da Fox News, afirmando que “destruíram a Amazônia” para construir uma avenida de quatro pistas em Belém.
É preciso não fazer ideia do tamanho da Amazônia para não notar a hipérbole. E não conhecer as posições de Trump sobre o meio ambiente para não notar a incoerência.
Lula voltou rapidamente para Belém, para discursar nesta segunda-feira (10) na abertura da COP. E fez novamente críticas contundentes ao negacionismo climático.
Entretanto, Lula não citou Trump nominalmente, nem em Santa Marta nem em Belém, como tem sido a sua conduta nesses casos.
A omissão dá ao presidente americano a opção de transformar esses discursos em obstáculos à reaproximação ou ignorá-los.
Depende da avaliação do próprio Trump sobre a relação custo-benefício de reaproximar ou brigar. Algo sobre o qual Lula não tem controle. Ninguém tem.



