Setor do etanol minimiza impacto de tarifaço e aposta em novos mercados
Ao longo dos últimos anos exportações brasileiras se tornaram menos dependentes dos Estados Unidos

A indústria brasileira de etanol avalia que as discussões comerciais abertas pelos Estados Unidos não devem provocar impactos relevantes sobre as exportações do biocombustível brasileiro. A avaliação é da diretora-executiva da UNEM (União Nacional do Etanol de Milho), Andrea Veríssimo, que participou da defesa do setor na audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Segundo a executiva, a argumentação brasileira foi construída com base em informações técnicas para rebater os principais questionamentos apresentados pelos norte-americanos. Entre eles, estão as críticas ao Renovabio, política nacional de biocombustíveis criada em 2017, e à redução das importações brasileiras de etanol produzido nos Estados Unidos.
"O Renovabio não avalia a origem do combustível. O programa considera exclusivamente a intensidade de carbono de cada produtor", afirma Andrea Veríssimo.
A executiva destaca que o programa brasileiro é aberto à participação de produtores estrangeiros, desde que cumpram os requisitos estabelecidos para certificação ambiental. Como forma de ampliar esse acesso, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) publicou no ano passado uma cartilha em inglês explicando o funcionamento do Renovabio e os procedimentos para que empresas internacionais possam participar do mercado brasileiro de Créditos de Descarbonização (CBios).
Para Andrea, esse é um dos principais pontos que diferenciam a posição brasileira das críticas apresentadas durante a investigação comercial conduzida pelo USTR.
Menor dependência dos Estados Unidos
Além da defesa técnica, a executiva afirma que uma eventual elevação de tarifas dificilmente provocaria grandes reflexos sobre o mercado brasileiro. Isso porque os Estados Unidos perderam importância como destino das exportações nacionais de etanol.
Em 2025, a Coreia do Sul consolidou-se como o principal comprador do produto brasileiro, respondendo por aproximadamente 780 milhões de litros, o equivalente a cerca de 48% de todo o volume exportado pelo país.
Os Estados Unidos ficaram na segunda posição, com 253 milhões de litros, cerca de 15,7% das exportações brasileiras. Na sequência aparecem os Países Baixos, com aproximadamente 221 milhões de litros (13,7%), além de Nigéria e Filipinas.
Até meados da década passada, o cenário era bastante diferente. Os Estados Unidos lideravam as compras de etanol brasileiro, impulsionados principalmente pela demanda da Califórnia por combustíveis de menor intensidade de carbono. Com a forte expansão da produção de etanol de milho norte-americano, porém, esse fluxo comercial perdeu força.
Ao mesmo tempo, mercados asiáticos passaram a ganhar relevância. A Coreia do Sul ampliou significativamente suas importações de etanol brasileiro, utilizado tanto pela indústria química quanto na mistura de combustíveis. Já os Países Baixos consolidaram-se como um importante centro logístico para redistribuição do produto ao restante da Europa.
Na avaliação da Unem, essa mudança tornou as exportações brasileiras menos dependentes do mercado norte-americano justamente no momento em que as relações comerciais entre os dois países atravessam um período de maior tensão.
Expansão global da mistura de etanol
A estratégia do setor também passa pela abertura de novos mercados. Segundo Andrea Veríssimo, diversos países vêm elevando os percentuais obrigatórios de mistura de etanol à gasolina como parte das políticas de descarbonização e segurança energética.
Entre os mercados considerados mais promissores pela indústria estão a Índia, que avança rapidamente para consolidar a mistura E20; o Japão, que prepara a ampliação do uso de etanol em sua estratégia climática; a própria Coreia do Sul, principal destino atual das exportações brasileiras; países do Sudeste Asiático, como Tailândia e Filipinas; e nações africanas, entre elas Quênia e Angola, que começam a estruturar programas nacionais de biocombustíveis.
Para o setor, a diversificação dos destinos das exportações tende a reduzir a exposição do Brasil a eventuais disputas comerciais e reforça o papel do etanol brasileiro na transição energética global.



