Luciana Taddeo
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Luciana Taddeo

Correspondente de América Latina, sediada há mais de 10 anos na Argentina. Morou na Venezuela.

Em carta, Brasil fala em atitude “antidemocrática” da Argentina no Mercosul

Documento foi assinado por secretária dos Direitos Humanos de Lula; subsecretário de Milei diz à CNN nunca ter recebido documento

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O governo brasileiro manifestou para a Argentina preocupação com o que considerou como “tentativas de cerceamento ao direito de fala” e “tratamento descortês” de representantes do governo de Javier Milei aos representantes de direitos humanos dos demais países do Mercosul, durante a presidência argentina do bloco.

“Manifestamos nossa preocupação com as tentativas de cerceamento ao direito de fala, com a condução unilateral dos trabalhos e com o tratamento descortês dispensado às delegações”, afirmou a secretária-executiva do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, Janine Mello dos Santos, em carta dirigida ao subsecretário de Direitos Humanos da Argentina, Alberto Baños.

No documento, assinado em 14 de maio, ao qual a CNN teve acesso, a representante brasileira enumerou diversas insatisfações com o modo com que os argentinos conduziram a realização das reuniões de direitos humanos do bloco.

Em 18 pontos, a carta da secretária brasileira dos direitos humanos de Luiz Inácio Lula da Silva afirma que o governo Milei convocou reuniões de forma intempestiva, não garantiu tempo suficiente para que os países entrassem em consenso sobre uma agenda comum, não realizou reuniões de grupos de trabalho, e tentou impor a aprovação ou rejeição de uma agenda, sem participação de “de maneira igualitária e horizontal” dos demais países na reunião plenária de Altas Autoridades sobre Direitos Humanos do Mercosul, realizada virtualmente em 6 de maio.

“Após a manifestação brasileira, a Presidência Temporária da Argentina, de maneira injustificada e antidemocrática, tentou impor que os estados se limitassem a aprovar ou rejeitar a agenda, sem que qualificassem ou justificassem seus posicionamentos”, expressa o ofício.

O documento diz que após protestos das delegações chilena, uruguaia e brasileira, a palavra foi dada à autoridade do Uruguai, “que apoiou o posicionamento da delegação brasileira e também se manifestou contrária à aprovação da agenda em votação”. Mesmo assim, segundo a carta, o direito à palavra dos países somente foi dado após questionamentos e discussões.

A secretária afirma na carta que o Brasil não teve pedidos atendidos nem respondidos pelos argentinos e que houve “recusa em estabelecer um diálogo aberto e multilateral” na condução de sugestões de mudanças e na construção de agendas das comissões e da reunião plenária.

“A delegação brasileira entendeu pela ausência de condições mínimas para a aprovação das agendas definidas unilateralmente, e assim procedeu em todas as reuniões das comissões permanentes”, diz, apontando que encontros especializados e de altas autoridades ocorreram de forma simultânea e “atípica”, nos dias 5 e 6 de maio.

O documento também manifesta preocupação com a ausência de instâncias formais de participação da sociedade civil, como uma conversa com as altas autoridades de Direitos Humanos.

A CNN apurou que antes do envio da carta brasileira, o Uruguai já tinha manifestado preocupação com a ausência das instâncias de participação da sociedade civil na agenda dos encontros.

O documento enviado pelo Brasil queixa-se ainda da “injustificada marginalização” da diretoria executiva do Instituto de Políticas Públicas em Direitos Humanos do bloco, liderado pela brasileira Andressa Caldas, nos trabalhos prévios à reunião plenária. “A expertise e papel institucional do IPPDH são fundamentais para assegurar a qualidade técnica e a efetividade das deliberações pelos Estados-parte”, diz o texto.

“Reiteramos nossa preocupação com os encaminhamentos dos trabalhos no âmbito da Reunião de Altas Autoridades de Direitos Humanos do Mercosul, pela falta de debates e pelo precedente que isso gera”, conclui o texto, pedindo participação ampla e transparente dos países membros, da sociedade civil e das instituições de apoio do bloco.

Procurado pela reportagem, o subsecretário argentino Alberto Baños disse nunca ter recebido a carta e que soube do mal-estar pela imprensa. Ele não fez comentários, no entanto, sobre as afirmações brasileiras.

A CNN, por sua vez, teve acesso a um documento assinado pela presidência temporária da Reunião de Altas Autoridades de Direitos Humanos da Argentina, datada de 21 de maio, agradecendo o envio da nota da delegação brasileira.

“A Argentina valoriza profundamente as opiniões de todos os Estados Parte do Mercosul e reafirma seu pleno compromisso com o respeito institucional, o diálogo multilateral e a construção comum no contexto deste fórum regional de direitos humanos”, diz o texto, que afirma que a presidência argentina abriu a agenda para a participação e expressão de todos os países.

A nota diz que “infelizmente, a impossibilidade de consensuar uma agenda comum, nesta ocasião” não permitiu que os integrantes do bloco avançassem nos debates técnicos e políticos previstos.

“Confiamos em que num futuro próximo possamos retomar uma agenda substantiva”, expressa o texto, afirmando que a Argentina “tem a convicção de que os direitos humanos requerem canais de diálogo permanente, participação efetiva e compromisso compartilhado”.

A CNN questionou o ministério da Justiça da Argentina, responsável pela subsecretaria de Direitos Humanos, sobre o ofício enviado pelo governo brasileiro e aguarda retorno. Também procurada, a chancelaria argentina não fez comentários.