Lucinda Pinto
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Lucinda Pinto

Jornalista de economia e negócios há mais de três décadas. Passou pelas redações de O Globo, Agência Estado, Valor Econômico e InvestNews.

O paradoxo dos juros e o recado do mercado

Enquanto juros básicos cedem, longos avançam: sinal de que déficit fiscal, é sim, grande problema, especialmente para Brasil

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O comportamento dos juros de longo prazo ao redor do mundo acende um alerta importante: há uma preocupação crescente com a trajetória da dívida dos governos.

No Japão, o rendimento dos títulos soberanos de prazo mais longo, os JGBs, chegou aos maiores níveis da história recente, acima de 4%. Nos Estados Unidos, o juro dos Treasuries de 30 anos segue flutuando perto de 4,9%. E, no Brasil, a taxa dos papéis de dez anos já encosta nos 14%.

Esse movimento tem sido parcialmente ofuscado pelo noticiário quentíssimo dos últimos dias — os embates geopolíticos promovidos por Donald Trump, a consequente desvalorização do dólar e a busca por ativos alternativos, que tem beneficiado os emergentes.

Ainda assim, o problema vem ganhando corpo, e o FMI (Fundo Monetário Internacional) tem alertado de forma recorrente os governos para os riscos associados ao aumento do endividamento público.

Nesse contexto, causou desconforto no mercado a declaração do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que o problema fiscal brasileiro não seria o déficit, mas o juro real.

A frase incomoda porque sugere, mais uma vez, a tentativa de atribuir o desequilíbrio das contas públicas a uma força externa — como se juros elevados fossem um fenômeno autônomo, e não parte do próprio problema. Déficit e juro se retroalimentam.

É verdade que um juro real acima de 8% ao ano impõe um custo pesado ao Estado. Em 2025, o gasto do governo com pagamento de juros foi equivalente a cerca de 8% do PIB (Produto Interno Bruto).

Pelas contas de analistas, essa despesa pode se aproximar de 9% do PIB em 2026. Para efeito de comparação, o gasto com aposentadorias e pensões do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) gira em torno de 13% do PIB.

Com um agravante: o universo de investidores que recebem juros da dívida pública é muito menor do que o dos quase 40 milhões de beneficiários da Previdência. Em outras palavras, juros persistentemente altos também operam como um mecanismo de concentração de renda.

Porém, o ponto central é que juros longos elevados não surgem do nada. Eles são, em grande medida, uma resposta a déficits primários persistentes, que elevam a percepção de risco fiscal e fazem os investidores exigir um prêmio maior para financiar o Estado. Nada disso é novidade: o Brasil discute essa equação há décadas. Ainda assim, o governo segue insistindo em desviar do foco.

Por ora, o cenário global relativamente favorável aos ativos de risco tem ajudado a conter maiores tensões. A questão é até quando.

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