Apostas elevam risco de inadimplência em até 40%, mostra estudo da Stone
Pesquisa que cruza dados de transações financeiras com informações de crédito mostra que entrada no mercado de bets piora a situação financeira dos apostadores e leva instituições a reduzir limites

Começar a apostar aumenta em cerca de 20% o risco de uma pessoa se tornar inadimplente. Quando são consideradas apenas as dívidas com cartão de crédito, o efeito é ainda maior: a inadimplência cresce quase 40%.
É o que mostra um estudo realizado por economistas da StoneCo Economic Research e do Insper sobre os efeitos das apostas online na saúde financeira dos brasileiros.
A pesquisa concluiu que, depois do início das apostas, a probabilidade de inadimplência aumenta 19,7% em relação ao patamar anterior. No cartão de crédito, a taxa de inadimplência sobe 38,7%. O impacto também é percebido tanto na perda de liquidez quanto na redução da capacidade de tomar crédito.
"O que o estudo confirma é que as bets têm provocado um efeito deletério sobre o endividamento", diz Rômullo Carvalho, economista da Stone.
Para chegar a essas conclusões, os economistas cruzaram dados de transações de clientes de uma instituição financeira com informações do Sistema de Informações de Crédito (SCR), do Banco Central.
A base permite identificar o momento em que cada cliente fez sua primeira transferência para uma plataforma de apostas e acompanhar, a partir daí, a evolução de indicadores financeiros.
O estudo se concentra nas pessoas que começaram a apostar a partir de janeiro de 2025, quando entrou em vigor o novo regime de regulamentação das bets no Brasil.
Os pesquisadores compararam a trajetória desses novos apostadores com a de clientes que não apostaram, controlando características financeiras anteriores, como volume de crédito, limite disponível, participação de linhas de crédito mais caras, número de operações e relacionamento com instituições financeiras.
A ideia é justamente tentar isolar o efeito da entrada nas apostas. Em vez de simplesmente comparar apostadores — que poderiam já apresentar uma situação financeira pior — com não apostadores, o estudo observa a mudança que ocorre depois da primeira aposta entre indivíduos com características anteriores comparáveis.
Menos crédito depois da primeira aposta
Os resultados indicam que a deterioração vai além do aumento da inadimplência. Depois que o cliente começa a apostar, o limite total de crédito concedido pelo sistema financeiro cai cerca de 16%. A redução é 2,6 vezes maior entre aqueles que já tinham menor disponibilidade de crédito antes da primeira aposta.
Esse resultado chama a atenção porque o limite não é uma decisão do consumidor, mas da instituição financeira. Para os autores, os dados sugerem que o início das apostas passa a funcionar como uma nova informação na avaliação de risco feita pelos credores.
Em outras palavras, não é apenas o apostador que muda seu comportamento financeiro: o sistema financeiro também reage ao aumento do risco percebido.
A pesquisa encontra ainda uma queda de pelo menos 43% na variação mensal do saldo em conta depois do início das apostas, um indicador de redução da liquidez disponível.
Os pesquisadores acompanham os fluxos de recursos enviados às plataformas, os saldos das contas e os dados de crédito dos mesmos indivíduos ao longo do tempo.
Outro dado ajuda a explicar esse efeito: nos primeiros seis meses de apostas, 90,8% dos apostadores observados depositaram nas plataformas mais dinheiro do que retiraram. Ou seja, para nove em cada dez pessoas analisadas, o fluxo líquido de recursos foi negativo.
Dificuldade financeira também leva às apostas
O estudo identifica, porém, uma relação mais complexa entre bets e endividamento. Parte das pessoas que começam a apostar já apresentava sinais de fragilidade financeira anteriormente.
Os pesquisadores fizeram, por isso, o exercício inverso: observaram o que acontece com a propensão a apostar depois que uma pessoa entra em inadimplência. A probabilidade acumulada de começar a apostar aumenta 2,6 pontos percentuais após a entrada na inadimplência.
Isso significa que há um movimento nas duas direções: dificuldades financeiras podem estimular a entrada nas apostas, mas as apostas, por sua vez, agravam a situação financeira.
Mesmo depois de descontar estatisticamente a fragilidade que já existia antes da primeira aposta, os efeitos permanecem expressivos. A estimativa de aumento da inadimplência geral fica em cerca de 14%, enquanto a alta da inadimplência no cartão permanece próxima de 35%.
O resultado aponta, portanto, para o risco de formação de um círculo de deterioração financeira: a dificuldade financeira aumenta a propensão a apostar; a aposta retira recursos disponíveis para pagar contas e dívidas; a inadimplência cresce; e as instituições financeiras respondem restringindo o crédito.
O fenômeno ganha relevância pela dimensão alcançada pelo mercado brasileiro. Cerca de 25 milhões de pessoas apostaram em plataformas autorizadas em 2025, segundo dados citados no estudo.
Somente nessas empresas, a receita bruta dos jogos — diferença entre o que foi apostado e o que voltou aos jogadores — chegou a aproximadamente R$ 37 bilhões no ano.



