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    Márcio Gomes

    Márcio Gomes

    Jornalista com mais de 30 anos de carreira, foi correspondente internacional e apresenta o CNN Primetime - mas sem deixar de fazer o que mais gosta, ir pra rua contar histórias!

    Três meses depois, Wajima tenta se reerguer de terremoto que devastou a cidade

    Tremor de 7,6 de magnitude, deixou 241 mortos; cidade japonesa ainda não tem água e governo estuda levar moradores para outro local

    Três meses depois, Wajima tenta se reerguer de terremoto que devastou a cidade
    Três meses depois, Wajima tenta se reerguer de terremoto que devastou a cidade

    Levará anos para que a região oeste do Japão se recupere do terremoto ocorrido no dia 1º de janeiro deste ano. A CNN Brasil esteve no começo de março na cidade mais atingida, Wajima. Por lá, poucas casas resistiram de pé. As que não estão inclinadas, condenadas pela defesa civil local, estão no chão. 241 pessoas morreram presas nos escombros.

    A região ainda enfrentava dificuldades de circulação quando estivemos lá. Especificamente em alguns pontos de Wajima, havia ruas interditadas por escombros que ainda não haviam sido removidos. Em compensação, os sinais de trânsito estavam funcionando e a telefonia móvel também. Contradições de um país que sabe como agir em casos de emergência.

    Mas ainda faltava água. Em um terremoto, as tubulações subterrâneas são as primeiras a se romper. Estivemos em um local perto da cidade que recebia caminhões-pipa de Tóquio — a distância não impede a solidariedade. Também estava estacionado um caminhão com máquinas de lavar roupa. Encontramos o senhor Akira abastecendo garrafões de água que trouxe no porta-malas do carro.

    Em vez de reclamar, ele se mostra resignado. “Precisamos entender as dificuldades, a topografia não ajuda nessa recuperação. Estamos todos sofrendo”, contou.

    Wajima fica na ponta da península de Noto, província de Ishikawa. Fica a cerca de 530 km, de carro, de Tóquio. As estradas que levam até a península alternam cenários de montanha e à beira-mar. Em ambos é possível ver o impacto do terremoto de 7,6 de magnitude do primeiro dia do ano. No interior, vários pontos de deslizamento. Terra misturada com neve, que desceu interditando pistas. A maioria já estava reaberta – com os detritos recolhidos em grandes sacos numerados, para saber exatamente o quanto desceu de cada montanha.

    No litoral, o mais impressionante é testemunhar a força que um tremor pode ter e até redesenhar a região. Cruzamos um ponto da costa de Ishikawa em que foi  possível perceber que o mar claramente recuou. As barreiras montadas há anos para evitar estragos na subida de marés ou tsunamis estão agora secas. As ondas estão quebrando mais longe por um motivo simples: o solo se elevou. O que era fundo do mar virou superfície.

    Chegou a haver um alerta de tsunami no dia 1º de janeiro, mas não aconteceu. A força do terremoto e a consequente destruição das casas foi o motivo principal da tragédia. Os japoneses não conseguiram entender o número tão elevado de mortes – mas basta estar na cidade e ver os escombros para termos uma noção. A maioria das casas era antiga, construções feitas antes da atualização de normas antitremor. A cada terremoto o homem aprende mais sobre o fenômeno e novas técnicas podem ser desenvolvidas para tornar construções mais resistentes.

    Mas isso custa caro — e, especialmente no interior do país, onde a população é mais velha, o custo para reformar uma casa ou prédio para torná-los mais resistentes muitas vezes é proibitivo. Vimos prédios inteiros que foram ao chão. Casas tombadas em cima de carros. Telhados que tocavam o solo — a casa desmontou por inteiro.

    A polícia reforçava o patrulhamento para evitar saques — em outras tragédias que, como jornalista, cobri no país, isso também se destacava: casas inteiras, visivelmente abaladas, com móveis e objetos intactos. Como se estivessem esperando os donos voltarem. Forno de microondas, sofás, cortinas, porta-retratos.

    Os abrigos ainda estavam sendo construídos para receber, quando todos  estiverem ocupados, oito mil famílias que ficaram sem moradia.

    O sofrimento também veio com o fogo, que acabou com um símbolo de Wajima: uma feira de produtos típicos que punha a cidade no mapa das atrações do Japão. Numa área equivalente a cerca de seis quarteirões, tudo virou cinza. A suspeita é de que a queda de postes elétricos tenha provocado o fogo. Os bombeiros levaram 24 horas para apagar o incêndio.

    Encontramos a senhora Sachiko — ela perdeu uma antiga colega de trabalho na tragédia. Nos seus 79 anos de vida, ela conta que este foi o terremoto mais forte que já sentiu. E cita um ditado que trata de prevenção e preparação.

    “Desastre natural ocorre quando você esquece”.

    Serve pra vida… Mesmo sabendo que Ishikawa nao vai conseguir esquecer tão cedo.