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    Mari Palma

    Mari Palma

    Sou jornalista, com pós em moda, neurociência e comportamento. Também sou embaixadora da Marvel, fã de Friends e Beatles, 4 vezes tia e mãe de cachorro

    BBB: será que a geração das mulheres de 30+ não tem mais tempo?

    Uma das falas da Fernanda, que foi eliminada, levantou uma discussão gigantesca na internet sobre a percepção de tempo depois dos 30 anos de idade

    BBB: será que a geração das mulheres de 30+ não tem mais tempo?
    BBB: será que a geração das mulheres de 30+ não tem mais tempo?

    Antes de começar esse texto, quero pedir pra você deixar a torcida de lado. A ideia não é discutir o BBB como jogo, nem apontar um favorito, mas abrir uma conversa isolada sobre uma fala de uma das ex-participantes, a Fernanda, de 32 anos. Na entrevista pós eliminação, ela disse o seguinte:

    “E ver outra pessoa que tá competindo comigo porque só quer tá na TV, só quer vender uma bala, um desodorante, só quer tá numa novela, eu acho isso muito fácil pra quem tem 20 anos. Você tem tempo pra conseguir isso. Eu perdi a porr* do meu tempo, não aqui, na vida. E é muito ruim competir com um monte de jovem. Porque eu não queria dizer que o sonho dela é menor que o meu, mas eu tenho muito mais pra lutar e ela não”.

    Aqui, ela se refere a uma outra participante, mais nova, com quem ela teve vários desentendimentos no programa. Mas o que eu quero destacar é a parte em que ela diz que “perdeu o tempo na vida”, uma fala que levantou uma grande discussão na internet. A Fernanda é uma mulher de 32 anos, mãe de 2 crianças, que saiu do BBB como uma figura polêmica: ela brigou, gritou, errou, se abriu e chegou a declarar algumas vezes que era uma pessoa “triste”. Quem sou eu pra dizer o que ela deve ou não sentir? Ninguém.

     

    Por mais que a gente tenha conhecido uma parte dela através do programa, existe muito mais por trás de quem ela é e como ela se sente hoje. Isso vale pra todos os participantes. Por isso, quero levar a discussão pra além da figura da Fernanda e ampliar pra todas nós, mulheres, que estamos nessa geração dos 30+. Uma geração que diz que, nessa idade, você precisa ter a vida resolvida. E se não for o caso? Será que o nosso tempo acabou?

    Primeiro de tudo: não tem resposta certa pra essa pergunta. É importante lembrar que essa discussão envolve muitas questões além da geração e do gênero: raça, classe, história de vida. Cada uma de nós veio de um lugar diferente e é vista pela sociedade de maneiras diferentes, então essa percepção é muito individual.

    Vou dividir com vocês um pouco da minha. Eu entendo quem sinta que não tem mais tempo pra nada, porque eu também sinto. Ainda mais quando eu olho para o lado e vejo outras mulheres com a mesma idade já em outras fases da vida que eu nem estou pensando em chegar. Na vida profissional e na vida pessoal.

    Ou quando eu vejo mulheres mais jovens que chegaram a lugares que eu nem imaginava chegar na idade delas. Ainda com energia. Sem dor nas costas. A gente só precisa tomar cuidado pra não reforçar a lógica da rivalidade feminina que sufocou a nossa geração por tanto tempo. A raiva pela raiva que não leva ninguém a lugar algum. Até porque a sociedade é cruel com todas as mulheres – de 20, 30, 40, 50 ou 80 anos. Todas as gerações têm dores diferentes, mas todas sofreram, sofrem ou vão sofrer com o tempo.

    De fato, pra gente, o tempo passa de um jeito muito cruel depois de certa idade. Mais do que isso: o olhar dos outros também vai ficando cada vez mais crítico. Então, sim, existe uma percepção de que o tempo tá passando em uma velocidade difícil de acompanhar e que a gente tá ficando pra trás. E isso gera ansiedade, frustração, medo, raiva. Sentimentos muito complexos, mas ao mesmo tempo muito válidos.

    Mas por outro lado, existe um lado meu que nunca se sentiu tão completo. Tão maduro. Tão pronto pra encarar o que vier. Sim, eu sei que provavelmente o mundo não me vê mais como uma jovem de 20 anos, mas dentro da minha realidade (e só posso falar a partir dela), tento ver isso como algo positivo. Nem sempre eu consigo, mas não posso deixar de tentar. Ao contrário do que me disseram a vida toda sobre a terrível passagem do tempo, eu quero me forçar a ver beleza nesse processo. Inclusive nas partes ruins.

    Talvez eu seja muito romântica, eu sei, e reconheço todos os meus privilégios que me permitem viver essa fase com esse olhar. Mas, mesmo em outras realidades, em maior ou menor grau, nada é mais bonito do que uma mulher que já viveu muitas coisas, já caiu e levantou, já errou e aprendeu e depois de tudo isso, conseguiu se reconhecer forte na frente do espelho. Com cicatrizes e dores. Sem contos de fadas. Mas com a maturidade necessária pra aceitar a realidade e bater de frente com ela.

    Ou seja, sim, o tempo passou. E vai continuar passando. Pra todas nós. Mas a gente é muito maior e muito mais forte do que ele. Ainda mais quando caminhamos juntas.