Cacau: o fruto ancestral que deveria ser protagonista na COP30
Segundo relatório da Mars, cacau corre risco de desaparecer de áreas tradicionais de cultivo até 2050.

O Dia Mundial do Cacau é celebrado em 7 de julho e é uma data reconhecida internacionalmente para destacar a importância social, econômica e ambiental do cacau, valorizar os produtores e promover práticas sustentáveis na cadeia de valor do chocolate.
O Brasil já foi o segundo maior produtor mundial de cacau na década de 1980, chegando a mais de 400 mil toneladas por ano. Hoje, mesmo com quase 300 mil toneladas, ainda é importador líquido: cerca de metade do cacau consumido no país vem de fora.
A produção está concentrada em dois polos: 55% na Amazônia e 45% no Sul da Bahia. É aqui, na região cacaueira baiana, que encontramos a cabruca, um sistema agroflorestal que une produtividade e conservação.
As maiores empresas produtoras globais de chocolate e outros produtos provenientes do cacau (off takers) já entenderam que sem inovação a produção mundial pode não acompanhar a demanda e se mobilizam em diversas frentes para garantir a oferta do oeste africano ao Brasil, do sul da Bahia ao Pará.Temos uma grande oportunidade de aumentar a escala de produção nacional, mas para isso é necessário também investir na capacitação técnica dos pequenos produtores e em soluções de irrigação, sombreamento e de produção de mudas.
Neste contexto, ganham força iniciativas de blended finance como o Fundo Kawá (Instituto Arapyaú, Plataforma de Investimentos Violet, Grupo Tabôa, MOV Investimentos, Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau), que pretende apoiar até 95 mil pequenos produtores, viabilizando R$ 1 bilhão crédito para práticas regenerativas até 2030.
Enquanto escrevo estas linhas, estou no Sul da Bahia, onde passei toda a semana visitando plantações de cacau, conversando com produtores nas regiões de Itabuna, Ilhéus, Serra Grande e Una. Esta visita me conecta ainda mais com o valor econômico, ambiental e simbólico desta cultura, bem como seu poder de inclusão e união de povos indígenas e quilombolas. Aprendi sobre cacau e também sobre a nossa história.
Para encerrar a semana com o coração cheio de esperança, fui convidada para participar de uma celebração com os indígenas Tupinambá de Olivença, em Una, que receberam, há um ano, em doação da Dinamarca o lendário Manto Tupinambá. Uma peça que saiu daqui há mais de 400 anos e simboliza nossa memória viva. A esperança é que o manto retorne definitivamente para Olivença — um gesto de reparação histórica e orgulho ancestral.
Proteger o cacau é proteger muito mais do que um fruto: é proteger florestas, culturas e pessoas. É investir em modelos como a cabruca, que une conservação e renda. E é garantir que as próximas gerações possam viver num Brasil que valoriza sua gente e suas florestas.
Aqui no Sul da Bahia, cada hectare de cabruca é um hectare a menos de desmatamento. É geração de renda, inclusão produtiva e floresta em pé.




