Patricia Ellen
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Patricia Ellen

Analista especial da COP30 da CNN Brasil, empreendedora da economia verde e especialista em soluções baseadas na natureza

Cacau: o fruto ancestral que deveria ser protagonista na COP30

Segundo relatório da Mars, cacau corre risco de desaparecer de áreas tradicionais de cultivo até 2050.

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O Dia Mundial do Cacau é celebrado em 7 de julho e é uma data reconhecida internacionalmente para destacar a importância social, econômica e ambiental do cacau, valorizar os produtores e promover práticas sustentáveis na cadeia de valor do chocolate.

Neste ano, entretanto, o cenário é de preocupação. Segundo o ‘Cocoa Climate Vulnerability Update 2025’, divulgado pela Mars em parceria com a World Cocoa Foundation e UC Davis (03 de julho de 2025), o cacau corre risco de desaparecer de áreas tradicionais de cultivo até 2050, se não houver mudanças estruturais na forma como cultivamos e protegemos essa cadeia.
Esse update faz parte do Mars Cocoa for Generations Progress Report 2025, com foco em:
• Reforçar a projeção de risco de inviabilidade climática para até 50%–90% das áreas tradicionais de cultivo de cacau até 2050, se não houver adaptação.
• Trazer dados revisados sobre temperatura, precipitação e zonas de altitude favoráveis.
• Incluir novos mapeamentos para América Latina, com destaque para Sul da Bahia e Amazônia brasileira como áreas-chave de expansão agroflorestal.
• Apresentar novas parcerias para pesquisas genéticas com UC Davis para variedades resistentes.
O Brasil: resgate ancestral que gera frutos, emprego e renda

O Brasil já foi o segundo maior produtor mundial de cacau na década de 1980, chegando a mais de 400 mil toneladas por ano. Hoje, mesmo com quase 300 mil toneladas, ainda é importador líquido: cerca de metade do cacau consumido no país vem de fora.

A produção está concentrada em dois polos: 55% na Amazônia e 45% no Sul da Bahia. É aqui, na região cacaueira baiana, que encontramos a cabruca, um sistema agroflorestal que une produtividade e conservação.

As maiores empresas produtoras globais de chocolate e outros produtos provenientes do cacau (off takers) já entenderam que sem inovação a produção mundial pode não acompanhar a demanda e se mobilizam em diversas frentes para garantir a oferta do oeste africano ao Brasil, do sul da Bahia ao Pará.Temos uma grande oportunidade de aumentar a escala de produção nacional, mas para isso é necessário também investir na capacitação técnica dos pequenos produtores e em soluções de irrigação, sombreamento e de produção de mudas.

Neste contexto, ganham força iniciativas de blended finance como o Fundo Kawá (Instituto Arapyaú, Plataforma de Investimentos Violet, Grupo Tabôa, MOV Investimentos, Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau), que pretende apoiar até 95 mil pequenos produtores, viabilizando R$ 1 bilhão crédito para práticas regenerativas até 2030.

Uma noite simbólica

Enquanto escrevo estas linhas, estou no Sul da Bahia, onde passei toda a semana visitando plantações de cacau, conversando com produtores nas regiões de Itabuna, Ilhéus, Serra Grande e Una. Esta visita me conecta ainda mais com o valor econômico, ambiental e simbólico desta cultura, bem como seu poder de inclusão e união de povos indígenas e quilombolas. Aprendi sobre cacau e também sobre a nossa história.

Para encerrar a semana com o coração cheio de esperança, fui convidada para participar de uma celebração com os indígenas Tupinambá de Olivença, em Una, que receberam, há um ano, em doação da Dinamarca o lendário Manto Tupinambá. Uma peça que saiu daqui há mais de 400 anos e simboliza nossa memória viva. A esperança é que o manto retorne definitivamente para Olivença — um gesto de reparação histórica e orgulho ancestral.

Proteger o cacau é proteger muito mais do que um fruto: é proteger florestas, culturas e pessoas. É investir em modelos como a cabruca, que une conservação e renda. E é garantir que as próximas gerações possam viver num Brasil que valoriza sua gente e suas florestas.

Aqui no Sul da Bahia, cada hectare de cabruca é um hectare a menos de desmatamento. É geração de renda, inclusão produtiva e floresta em pé.

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