
A COP dos realistas esperançosos
Conferência avança em financiamento climático e nova economia, mas evita temas como fósseis e desmatamento

Ariano Suassuna dizia que, se os otimistas são tolos e os pessimistas são chatos, devemos ser realistas esperançosos. A COP30 comprovou essa máxima. Diante da emergência climática, essa é a única postura capaz de transformar discussões multilaterais em ações concretas que preservem vidas, regenerem territórios e criem prosperidade com inclusão.
Entramos na COP30 com um propósito claro: promover uma nova economia, que coloque pessoas, natureza e negócios no centro, com pragmatismo e ambição. Essa visão parte de três verdades incômodas: não estamos na rota de 1,5°C; já vivemos a era da adaptação climática; e nenhuma transição será possível sem financiamento em escala, capital privado e formação da força de trabalho que sustentará essa transformação.
É por isso que o documento final traz metas decisivas: US$ 1,3 trilhão anuais para financiar a transição em países emergentes e a necessidade de triplicar os investimentos em adaptação, alcançando ao menos US$ 300 bilhões por ano, número que nossas análises mostram ser já insuficiente e tardio, na verdade, de US$ 348 bilhões.
A COP também deu um passo histórico ao incluir a agenda de comércio na decisão final. Isso aponta para uma visão mais justa das cadeias produtivas globais de baixo carbono, permitindo que países emergentes não sejam apenas obrigados a atender padrões impostos, mas também se tornem protagonistas na captura de valor agregado. É uma mudança estrutural que reposiciona o Sul Global no centro da nova economia.
Mas, como realistas esperançosos, também reconhecemos as ausências. A COP30 deixou de mencionar explicitamente combustíveis fósseis e desmatamento, mesmo realizada em plena Amazônia, um silêncio que preocupa e que agora será empurrado para as discussões na Colômbia, em um contexto politicamente sensível às vésperas das eleições. Esses temas voltam inevitavelmente para o centro do debate, mas o adiamento revela os limites do consenso no momento atual.
Se a negociação mostrou tensões, a Agenda de Ação mostrou caminhos concretos. Os trabalhos foram mais estruturados do que em qualquer COP anterior, consolidando 700 iniciativas e avançando em áreas centrais: empregos e habilidades para a nova economia (green skills), mecanismos de financiamento climático, ReInvest+, Investimentos para adaptação, “Industry Transition Accelerator” e programas de descarbonização que já funcionam, mas precisam de capital e governança para escalar.
E, enquanto Belém sediava as negociações, São Paulo viveu a maior mobilização de capital privado da história do Brasil para clima e natureza. Houve anúncios decisivos do BID, IFC, BNDES e Tesouro. Entre eles, o EcoInvest, que já mobilizou quase R$ 70 bilhões em projetos da nova economia de baixo carbono, agora prontos para sair da fase pré-operacional para os primeiros aportes; e o ReInvest+, que reforça a expectativa global de destravar investimentos para economias emergentes.
A COP30 não entregou tudo o que queríamos, mas tudo o que entregou era essencial. Deixou lacunas importantes, mas também abriu caminhos inéditos. E mostrou que, diante da urgência climática, somente o realismo esperançoso nos permite seguir adiante, com clareza, coragem e compromisso com uma transição justa que una desenvolvimento, natureza e oportunidades para todos.



