Análise: Na Seleção, Carbono ganha a camisa 10
Neutralizar emissões fortalece a governança ambiental da CBF, mas também expõe os limites da compensação de carbono diante da maior Copa do Mundo da história

Durante décadas, o camisa 10 representou o jogador capaz de decidir partidas. Agora, o carbono começa a disputar esse protagonismo. Ao anunciar o programa "Seleção Carbono Neutra", a CBF mostra que o desempenho ambiental passou a integrar a estratégia institucional do futebol brasileiro.
Lançado em Miami, o programa "Seleção Carbono Neutra" começa por uma etapa ainda pouco comum no esporte: medir as emissões. O inventário elaborado pelo Instituto Climático VBH mostra que 72% das emissões da delegação estão associadas ao transporte, enquanto hospedagem responde por 16%, alimentação por 9% e resíduos por 3%.
A partir desse diagnóstico, a CBF pretende reduzir as emissões sempre que possível e compensar aquelas consideradas inevitáveis por meio de créditos de carbono vinculados ao MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), utilizando o projeto do Aterro Sanitário de Seropédica, no Rio de Janeiro.
A compensação ocorrerá por meio da aquisição de créditos de carbono gerados pelo projeto do Aterro Sanitário de Seropédica, no Rio de Janeiro. No local, o metano produzido pela decomposição dos resíduos é capturado antes de ser liberado para a atmosfera e utilizado para geração de energia ou queimado de forma controlada.
Como esse gás possui potencial de aquecimento global muito superior ao do dióxido de carbono, sua captura gera reduções certificadas de emissões no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que podem ser utilizadas para compensar as emissões inevitáveis da delegação brasileira.
A metodologia segue uma lógica reconhecida internacionalmente: primeiro medir, depois reduzir e, apenas para as emissões residuais, compensar. Sob essa perspectiva, a iniciativa representa um avanço importante na forma como o esporte incorpora critérios ambientais às suas decisões.
Durante muitos anos, a sustentabilidade ocupou posição periférica nas organizações esportivas. Agora, integra decisões relacionadas à governança, à transparência e à gestão de riscos reputacionais, acompanhando uma transformação já observada em setores como energia, mineração, aviação e infraestrutura.
Ao mesmo tempo, é preciso dimensionar corretamente o alcance da iniciativa. A pegada de carbono da delegação brasileira representa apenas uma fração das emissões da Copa do Mundo de 2026. Estudos independentes estimam que a Copa do Mundo de 2026 poderá emitir pelo menos 7,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente, mais que o dobro da edição realizada no Catar.
Parte desse aumento decorre da ampliação do torneio para 48 seleções e da realização simultânea em Estados Unidos, Canadá e México. Outra parcela resulta do aumento expressivo dos deslocamentos aéreos de equipes, autoridades e torcedores. Nesse contexto, neutralizar as emissões da Seleção constitui um sinal relevante, mas está longe de alterar, por si só, a pegada climática do evento.
Essa diferença de escala ajuda a explicar por que parte da comunidade científica e de organizações ambientalistas cobra um posicionamento mais contundente da FIFA. Embora a entidade tenha assumido o compromisso de reduzir em 50% suas emissões até 2030, críticos observam que ainda há poucas informações públicas sobre como essas metas serão compatibilizadas com uma Copa significativamente maior e mais intensiva em deslocamentos internacionais.
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Nesse aspecto, a opção pelo uso de créditos oriundos de um projeto registrado no âmbito do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo oferece um grau extra de robustez institucional, embora não elimine a necessidade de auditorias independentes e de divulgação transparente dos inventários e das metodologias empregadas.
Em sustentabilidade, confiança não decorre apenas da intenção de compensar emissões, mas da capacidade de demonstrar, com evidências verificáveis, que os resultados efetivamente ocorreram.
O futebol ocupa uma posição singular nesse debate. Poucas atividades possuem capacidade semelhante de influenciar comportamentos e mobilizar milhões de pessoas em torno de uma mesma mensagem. Quando uma seleção nacional incorpora métricas climáticas à sua gestão, contribui para aproximar um tema tradicionalmente restrito a conferências internacionais, empresas e governos do cotidiano da sociedade.
Ao medir os impactos ambientais de uma campanha esportiva, a CBF reforça uma mudança de paradigma: desempenho ambiental passou a integrar o conceito de excelência na gestão. No futebol moderno, a reputação também entrou em campo. E, ao que tudo indica, o carbono já conquistou lugar entre os titulares.



