Análise: O número de terremotos aumentou?
A sucessão de terremotos no noticiário alimenta a impressão de que a Terra está mais instável. Alertas se multiplicam, imagens circulam em tempo real e episódios distantes parecem cada vez mais próximos. A estatística, porém, exige uma leitura mais cuidadosa

Quando vários terremotos importantes chegam ao noticiário em um intervalo curto, surge uma impressão quase inevitável: a Terra estaria tremendo mais. É uma conclusão intuitiva. Os dados, porém, contam outra história.
Os registros modernos não indicam aumento sustentado da frequência global dos grandes terremotos. Em atualização publicada em fevereiro deste ano, o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, estima, com base nos registros de longo prazo, cerca de 16 eventos de magnitude 7 ou superior por ano.
Essa média convive com oscilações expressivas. Segundo o próprio USGS, 2010 teve 23 grandes terremotos, enquanto 1989 registrou seis. Uma diferença dessa dimensão mostra como poucos meses — ou mesmo um único ano — podem produzir uma percepção enganosa de tendência.
O ponto central está justamente aí: concentração não significa crescimento.
A transformação mais evidente ocorreu na nossa capacidade de observar o planeta. O catálogo ComCat, mantido pelo USGS, registra hoje muito mais terremotos não porque a Terra necessariamente esteja produzindo mais eventos, mas porque existem mais instrumentos capazes de detectá-los. O National Earthquake Information Center localiza cerca de 20 mil terremotos por ano, aproximadamente 55 por dia.
O British Geological Survey chega à mesma conclusão. Quando se observa a quantidade de grandes terremotos, é importante notar que eles podem acontecer juntos em alguns momentos. As pessoas costumam notar mais os períodos em que há muitos terremotos e não percebem os momentos em que não acontecem muitos deles.
A comunicação ampliou ainda mais esse efeito. Um terremoto no Pacífico, na Ásia ou nos Andes pode gerar alertas, vídeos, mapas e notícias internacionais em poucos minutos. A distância geográfica deixou de representar distância informacional.
O jornalismo tornou os terremotos mais visíveis, mas redes sociais, aplicativos, sistemas de alerta e plataformas de monitoramento também colocaram a atividade sísmica diante de uma audiência global praticamente em tempo real.

Ao analisar riscos naturais, há uma distinção essencial: frequência não é sinônimo de impacto. Mesmo sem aumento do número de grandes terremotos, suas consequências podem ganhar relevância quando atingem regiões mais urbanizadas, infraestrutura crítica e áreas com grande concentração populacional.
Isso explica por que um planeta que não apresenta crescimento sustentado da grande sismicidade pode parecer cada vez mais vulnerável aos seus efeitos.
As séries históricas também precisam ser tratadas com cuidado. Os registros das primeiras décadas do século XX não possuem a mesma cobertura dos atuais. Comparar mecanicamente os extremos dessa série pode transformar avanços tecnológicos na detecção em aparente mudança geológica.
A conclusão é menos alarmante do que o noticiário pode sugerir. Monitoramos melhor, recebemos informação mais rapidamente e temos mais pessoas e patrimônio expostos. Isso aumenta nossa percepção do risco, não necessariamente a frequência do fenômeno.
Uma sequência de terremotos pode ganhar o noticiário e as redes sociais. Para se transformar em tendência, porém, precisa aparecer também nas estatísticas — e, até agora, elas não mostram que a Terra esteja tremendo mais.



