Análise: recuo abala a geleira símbolo da Patagônia
Após décadas resistindo ao aquecimento, Perito Moreno entra em fase de recuo acelerado

A geleira Perito Moreno recuou cerca de 385 metros em 2025, a maior retração registrada em 27 anos de imagens de satélite. O dado importa não apenas pela distância perdida, mas pelo que representa: uma das geleiras mais emblemáticas da Patagônia deixou de ser exceção.
Durante décadas, a Perito Moreno manteve a frente relativamente estável enquanto geleiras vizinhas perdiam área, espessura e volume. Sua geometria e o terreno sob o gelo funcionavam como proteção natural, retardando uma resposta que agora se tornou visível.
Estudo publicado em 2026 na revista Progress in Physical Geography, liderado por Javier Andrade-Jiménez, identificou recuo persistente desde 2016, com taxas de até 55 metros por ano. A geleira perdeu cerca de três quilômetros quadrados desde 1997, e quase dois terços dessa redução ocorreram na fase mais recente.
Outra pesquisa, publicada em 2025 na Communications Earth & Environment e liderada por Moritz Koch, chegou à conclusão similar. O rebaixamento médio da superfície frontal passou de 34 centímetros por ano, entre 2000 e 2019, para 5,5 metros anuais entre 2019 e 2024. Em um dos setores, o recuo superou 800 metros.
Os estudos medem aspectos distintos: um acompanha a posição da frente e a perda de área; o outro examina afinamento, velocidade e topografia subglacial. Juntos, mostram que a Perito Moreno não enfrenta apenas uma oscilação sazonal, mas uma mudança de regime.
Uma elevação rochosa sob o gelo e uma moraina submersa — acúmulo de sedimentos e rochas depositados pelo próprio avanço da geleira ao longo do tempo — ajudavam a manter a frente ancorada.
O aquecimento é a pressão de fundo. A profundidade do lago, o relevo subglacial e a velocidade do fluxo determinam quando e com que intensidade a geleira responde. A estabilidade anterior não contrariava a mudança climática; apenas retardava seus efeitos visíveis.
Esse é o significado simbólico do recuo atual. A Perito Moreno foi muitas vezes apresentada como contraponto à retração generalizada das geleiras da Patagônia. Confundiu-se uma exceção temporária com a negação da tendência.
O IPCC considera muito provável que a influência humana seja o principal fator do recuo quase generalizado das geleiras desde a década de 1990. O caso da geleira Perito Moreno não prova sozinho essa atribuição global, mas é plenamente coerente com ela.
Isso não significa desaparecimento ou colapso iminente. Os modelos indicam risco de retração maior caso a frente ultrapasse o ponto de apoio subglacial, mas não estabelecem datas.
A Perito Moreno deixou de ser apenas um cartão-postal e o cenário de impressionantes rupturas de gelo. Tornou-se o registro visível de uma transição. Quando até uma geleira historicamente resistente entra em recuo recorde, o aquecimento do planeta deixa marcas cada vez mais difíceis de relativizar.



