Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Oscilação do Pacífico poderá reduzir intensidade do El Niño

Mesmo com oceanos excepcionalmente aquecidos, configuração atual do Pacífico pode dificultar um super El Niño clássico

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O comportamento recente do Oceano Pacífico indica que as projeções mais extremas para o próximo El Niño talvez precisem ser analisadas com cautela. Embora os oceanos globais continuem registrando temperaturas recordes, um importante mecanismo climático de longo prazo pode estar atuando para limitar a intensidade máxima do fenômeno.

Trata-se da Oscilação Decadal do Pacífico (PDO, na sigla em inglês), um ciclo natural de aquecimento e resfriamento das águas da porção norte do Pacífico que influencia o comportamento do El Niño e da La Niña ao longo de décadas.

análise da série histórica da PDO mostra um padrão relevante: os três episódios considerados como super El Niño nas últimas décadas ocorreram durante fases positivas da oscilação. Isso aconteceu em 1982–1983, em 1997–1998 e também em 2015–2016.

Nesses períodos, as águas do Pacífico apresentavam uma configuração mais favorável ao fortalecimento do El Niño. Em fases positivas da PDO, o oceano tende a facilitar o deslocamento de águas quentes para a porção leste do Pacífico, próxima à América do Sul. Isso ajuda a enfraquecer ventos que normalmente empurram essas águas em direção à Ásia e aumenta a interação entre oceano e atmosfera — condição essencial para episódios extremos do fenômeno.

O cenário atual é diferente. A PDO permanece em fase negativa, o que historicamente tende a reduzir a probabilidade do desenvolvimento de super El Niños.

Essa condição já parece ter influenciado o episódio de 2023–2024. Embora o fenômeno tenha atingido níveis fortes em diversos indicadores internacionais, ele não apresentou o mesmo grau de organização atmosférica observado nos super El Niños clássicos de 1982, 1997 e 2015.

Na prática, o oceano acumulava enorme quantidade de calor, mas a atmosfera não respondeu de forma tão intensa e persistente. Os ventos do Pacífico não perderam força de maneira tão prolongada e o sistema climático mostrou maior instabilidade ao longo do evento.

Isso não significa que o El Niño tenha sido fraco. Pelo contrário. O episódio contribuiu para uma sequência histórica de recordes de temperatura global e ajudou a impulsionar eventos extremos em diferentes partes do planeta.

Mas o comportamento da PDO sugere que o Pacífico talvez ainda mantenha mecanismos naturais capazes de moderar episódios muito extremos de El Niño — mesmo em um planeta cada vez mais quente.

Ao mesmo tempo, o aquecimento global adiciona um novo elemento à equação. Os oceanos estão hoje significativamente mais aquecidos do que há algumas décadas, o que pode reduzir parte da capacidade histórica da PDO de conter eventos extremos.

Por isso, a interação entre PDO e o sistema El-Niño – La-Niña passou a ser observada com atenção crescente por centros internacionais de monitoramento climático. O desafio agora é entender até que ponto os padrões climáticos conhecidos no século passado continuarão funcionando da mesma maneira em um planeta em acelerado aquecimento.

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