Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: O Brasil já fabrica seu próprio El Niño

O país não precisa mais esperar o Pacífico esquentar para secar. Já aprendemos a fazer isso sozinhos, motosserra na mão

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O Brasil monitora o Pacífico para prever o El Niño, mas já convive com um mecanismo de estiagem produzido dentro de suas fronteiras. Ao desmatar a floresta amazônica, o país reduz a umidade disponível para formar chuvas na própria Amazônia e na região central. Em termos econômicos, estamos fabricando nosso próprio El Niño.

A comparação é provocativa, mas não corresponde a uma classificação meteorológica. O El Niño verdadeiro nasce do aquecimento anormal do Pacífico Equatorial. O desmatamento atua por outro caminho, mas pode produzir efeitos semelhantes: menos chuva, mais calor, estiagens prolongadas e menor disponibilidade de água nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste.

A floresta participa ativamente da produção do clima. A umidade trazida do Atlântico precipita sobre a Amazônia, infiltra-se no solo e retorna à atmosfera pela evapotranspiração propiciada pelas grandes árvores. Estas, como têm raízes profundas, conseguem drenar a água que se infiltrou no subsolo mais profundo. Esse processo renova a carga de vapor das massas de ar que avançam para o Centro-Oeste, o Sudeste e a Bacia do Prata.

O arco do desmatamento está rompendo esse mecanismo. A faixa degradada nas bordas sul e leste da Amazônia funciona como uma trincheira ecológica. Ela não impede a passagem dos eventos, mas reduz a água que a vegetação adicionaria à atmosfera. Com a supressão das grandes árvores, a água que se infiltrou no subsolo mais profundo deixa de ser drenada e devolvida à atmosfera com a mesma intensidade. Os ventos continuam soprando, porém os rios voadores transportam menos umidade.

Em partes críticas desse arco, a perda de vegetação nativa já supera 25%. Thomas Lovejoy e Carlos Nobre estimaram, no artigo “Amazon Tipping Point” (Science Advances, 2018), que a eliminação de 20% a 25% da floresta poderia desorganizar – de maneira permanente - o ciclo hidrológico necessário à manutenção da Amazônia. Com esse percentual, seria ultrapassado o chamado ponto de ruptura a partir do qual a floresta perderia capacidade de autorregeneração.

Em diversas áreas do arco do desmatamento, a perda de vegetação nativa já supera 25%. Essa ampla faixa acaba funcionando como uma trincheira que impede a recirculação da umidade e o transporte do vapor d’água pelos rios voadores. Os ventos continuam soprando, mas geram cada vez menos chuvas em seu caminho.

Os reservatórios do Brasil central oferecem um sinal preocupante. Uma análise de onze hidrelétricas instaladas em cabeceiras de rios encontrou queda expressiva nas vazões afluentes – a água que chega naturalmente às usinas - a partir de 2012 a 2014. A redução chegou a cerca de 40% em Furnas, 47% em Três Marias, 31% em Serra da Mesa, 36% em Emborcação e 41% em Corumbá. Estudo conduzido pela pesquisadora Fernanda Massaro
Leonardis, no Instituto de Energia e Ambiente da USP, sob minha orientação no Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental (PROCAM), demonstra isso.

A Região Sul responde de forma parcialmente distinta. Ela recebe umidade amazônica, mas também depende de frentes frias e sistemas extratropicais. O El Niño tende a ampliar as chuvas na região, enquanto a La Niña pode acentuar períodos de deficiência hídrica. Por isso, o efeito do desmatamento é mais direto na Amazônia Norte, no Centro-Oeste e no Sudeste.

A queda recente do desmatamento é importante, mas não representa recuperação florestal. Ela reduz a velocidade do dano; não recompõe o estoque perdido. Somente a restauração devolve gradualmente raízes profundas, cobertura vegetal e capacidade de reciclar umidade.

Para o setor elétrico, a floresta deve ser tratada como infraestrutura. Menos água afluente significa menor geração hidrelétrica, maior uso de termelétricas e eletricidade mais cara. O efeito alcança as tarifas, a indústria, os alimentos e a inflação.

Zerar o desmatamento evita que a conta cresça. Restaurar a floresta recupera uma margem de segurança. Trocar floresta por terra barata hoje é aceitar água escassa e energia cara amanhã. E esse poderá ser um caminho sem volta.