La Niña perde força e mercado passa a analisar um El Niño em 2026
Cenário climático mais incerto começa a ser considerado nas projeções para este ano

O atual episódio de La Niña, que marcou o ciclo climático de 2025–2026, está claramente em fase de enfraquecimento. Em termos simples, isso significa que o resfriamento abaixo da média das águas do Pacífico equatorial — marca registrada da La Niña — está desaparecendo, reduzindo sua capacidade de influenciar o clima global de forma persistente.
Os principais centros internacionais de monitoramento climático convergem nesse diagnóstico. A NOAA, agência oficial dos Estados Unidos responsável pelo monitoramento do clima e dos oceanos, indica alta probabilidade de transição para a fase neutra ainda no primeiro trimestre do ano. O mesmo diagnóstico é compartilhado pelo International Research Institute for Climate and Society (IRI), centro ligado à Universidade de Columbia e referência internacional em previsões climáticas. A convergência entre essas instituições reforça a leitura de que o atual ciclo de La Niña caminha para o fim no curto prazo.
Com essa fase neutra do sistema climático do Pacífico, em que não há nem La Niña nem El Niño, as temperaturas do oceano ficam próximas da média histórica, o que tende a reduzir extremos climáticos globais organizados, embora não elimine a ocorrência de eventos regionais de chuva ou calor intensos.
O ponto de maior interesse, porém, está mais adiante no calendário. Os modelos climáticos começam a mostrar sinais de aquecimento progressivo das águas do Pacífico equatorial ao longo do segundo semestre, elevando a chance de formação de um El Niño ainda em 2026. Essa leitura, no entanto, vem acompanhada de uma ressalva técnica importante: o sistema climático entra, entre março e maio, na chamada spring predictability barrier, um limite natural da capacidade de prever o comportamento do El Niño e da La Niña quando as projeções são feitas entre março e maio. Em outras palavras, um sinal de El Niño existe, mas ainda não é definitivo.
Para o mercado, essa possível transição não é apenas um detalhe meteorológico. A expectativa de El Niño introduz o que analistas chamam de risco climático assimétrico: um tipo de risco em que os impactos negativos potenciais tendem a ser mais intensos e concentrados do que os benefícios, afetando de forma desigual regiões, setores e cadeias produtivas.
No caso do Brasil e da América do Sul, os efeitos tendem a ser bem conhecidos. El Niño costuma aumentar as chuvas no Sul do Brasil, Argentina e Uruguai, elevando riscos de cheias e eventos extremos, enquanto reduz os volumes pluviométricos no Norte e Nordeste do Brasil, com impactos sobre agricultura, abastecimento de água e geração hidrelétrica. Já a saída da La Niña reduz a probabilidade de chuvas acima da média justamente nessas regiões do Norte e Nordeste, que foram — em parte — um pouco mais beneficiadas durante o atual ciclo.
Para o setor elétrico, isso significa mudança rápida na leitura sobre reservatórios. Um cenário de neutralidade ou El Niño tende a melhorar a hidrologia no Sul, mas pode pressionar os níveis de armazenamento no Sudeste e no Nordeste, regiões-chave para o sistema elétrico nacional, que já estão trabalhando — em boa parte — com chuvas abaixo da média neste verão.
Esse tipo de inversão passa a influenciar decisões sobre uso de termoelétricas, custos operacionais e, mais adiante, tarifas e bandeiras. Essas expectativas começam a aparecer de forma difusa em decisões de mercado: maior cautela em projetos dependentes de clima, reavaliação de seguros, uso de instrumentos de hedge e uma leitura mais conservadora do risco regulatório, já refletida em custo de capital mais elevado — seja na forma de WACC mais exigente, prêmios de seguro mais altos ou spreads mais largos para investimentos de longo prazo.
O cenário-base, portanto, é de normalização climática no curto prazo, com aumento gradual da incerteza no horizonte. Não há, por ora, confirmação de um El Niño, mas o sinal é suficientemente relevante para entrar no radar de investidores, formuladores de políticas públicas e gestores de risco.
Em síntese, a La Niña se despede sem deixar um legado estrutural, mas o mercado começa a precificar, com cautela crescente, a possibilidade de um novo ciclo de aquecimento do Pacífico ainda em 2026. Em clima, assim como em economia, períodos de neutralidade raramente significam estabilidade duradoura.



