Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: Margem Equatorial não deve frear os biocombustíveis

Nova fronteira de petróleo pode ampliar reservas e receitas, mas etanol e biodiesel cumprem funções estratégicas para a energia, o agronegócio e a transição energética

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Morpho ainda não é uma reserva comercial. A Petrobras identificou hidrocarbonetos na costa do Amapá, mas precisa demonstrar escala, produtividade e competitividade. Mesmo que novos poços confirmem uma importante fronteira petrolífera, isso não deveria reduzir a prioridade dos biocombustíveis.

O Brasil de 2026 é muito diferente daquele que recebeu o pré-sal no final dos anos 2000. O paralelo histórico exige cuidado. Segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o setor sucroenergético enfrentou, após 2008, endividamento, restrição de crédito, problemas climáticos, maior remuneração do açúcar e perda de competitividade diante da gasolina.

Ao mesmo tempo, o pré-sal passou a concentrar investimentos e atenção estratégica em escala extraordinária. Hoje, o etanol chega a uma eventual nova era petrolífera em situação muito mais sólida.

Desde agosto de 2025, a gasolina brasileira utiliza 30% de etanol anidro, o E30. O biodiesel também ganhou escala: o B15 está em vigor e a Lei do Combustível do Futuro abre caminho para misturas maiores, condicionadas às avaliações técnicas.

A força política também aumentou. Em fevereiro, as frentes parlamentares da Agropecuária, Biodiesel, Etanol e Economia Verde criaram a Coalizão dos Biocombustíveis. O setor passou a reunir mercado, investimentos, legislação e representação política em uma dimensão que não existia quando o pré-sal começou a transformar a indústria brasileira de energia.

No biodiesel, há ainda outra função econômica: reduzir a exposição do agronegócio à China. Dados do Comex Stat mostram que o mercado chinês recebeu 73% da soja em grão exportada pelo Brasil em 2024.

O China Agricultural Outlook projeta importações de 82,55 milhões de toneladas em 2035, 26,2% abaixo do recorde de 2025. Isso não significa que a China deixará de ser um grande comprador, mas indica que o Brasil não deveria planejar a expansão agrícola supondo crescimento contínuo dessa demanda.

O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, já afirmou que governo e setor produtivo estão buscando novos mercados e veem uma alternativa nos biocombustíveis para absorver parte da produção.

Criar demanda doméstica passa, assim, a ser uma maneira de reduzir a dependência e agregar valor à soja. Segundo a EPE, 6,6 milhões de toneladas de óleo de soja foram destinadas em 2024 à produção de aproximadamente 7,2 bilhões de litros de biodiesel.

Para 2035, a empresa projeta demanda de até 13,9 bilhões de litros. Esse crescimento não substituiria sozinho uma eventual retração chinesa, mas ampliaria o esmagamento doméstico da soja, a produção de farelo e as oportunidades em diesel renovável e combustível sustentável de aviação.

Há contrapontos importantes. Misturas maiores precisam demonstrar segurança técnica e competitividade, enquanto a expansão da demanda por soja deve vir acompanhada de produtividade e rastreabilidade.

Uma oferta abundante de petróleo a custos competitivos também poderá fortalecer argumentos contra políticas que elevem excessivamente o custo dos combustíveis renováveis para o consumidor. É justamente nesse ponto que entra a transição energética.

Ela não pressupõe que o petróleo desapareça rapidamente da economia, mas exige reduzir progressivamente a dependência dos combustíveis fósseis onde existem alternativas competitivas.

Uma nova fronteira petrolífera pode gerar receita e exportações durante décadas, sem impedir que o Brasil diminua a intensidade de carbono dos transportes com etanol, biodiesel e novas rotas renováveis.

O conflito surgirá se a abundância de petróleo for utilizada para retardar essa mudança e prolongar artificialmente a dependência dos derivados fósseis. A geopolítica reforça o valor dessa diversificação.

Em 10 de agosto, segundo a Reuters, os futuros de diesel nos Estados Unidos subiram 7,4% em meio às restrições no Estreito de Hormuz e a ataques contra refinarias na Rússia e na Arábia Saudita. O episódio mostrou que possuir petróleo não significa estar protegido contra choques no abastecimento de derivados.

Entre o poço e o tanque existem refino, logística e rotas comerciais. O biodiesel reduz parte dessa vulnerabilidade ao substituir diesel fóssil no mercado doméstico, enquanto o etanol exerce papel semelhante em relação à gasolina.

A Petrobras encontrou hidrocarbonetos e agora precisa demonstrar escala e competitividade. Para o Brasil, o desafio é aproveitar uma eventual nova riqueza petrolífera sem permitir que ela desacelere uma transição energética na qual os biocombustíveis representam uma das principais vantagens competitivas do país.

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