Análise: a economia do calor já começou
O estresse térmico poderá custar US$ 2,4 trilhões por ano à economia global até 2030. O número, frequentemente citado em estudos sobre mudanças climáticas, ajuda a dimensionar uma transformação que já está em curso: o calor extremo deixou de ser apenas uma preocupação ambiental e passou a produzir efeitos econômicos mensuráveis

Quando a OIT (Organização Internacional do Trabalho) apresentou essa estimativa, ela se baseava em um cenário de aquecimento global de 1,5°C até o final do século.
Hoje, o debate já é outro. Relatório divulgado pela entidade em 2024 mostra que cerca de 2,4 bilhões de trabalhadores — aproximadamente 70% da força de trabalho mundial — estão expostos ao calor excessivo durante suas atividades profissionais.
A mudança é importante porque desloca a discussão do campo das projeções para o da realidade econômica. Construção civil, agricultura, logística, mineração e manutenção urbana convivem cada vez mais com interrupções de jornada, pausas adicionais e redução do desempenho físico.
Segundo a própria OIT, aproximadamente 60% das horas de trabalho perdidas em decorrência do calor concentram-se na agricultura e na construção. Trata-se de uma perda silenciosa: não provoca manchetes diárias, mas reduz produtividade, renda e competitividade.
O Brasil oferece exemplos concretos dessa transformação. Durante as ondas de calor registradas em 2023 e 2024, diversas capitais bateram recordes de temperatura e consumo de eletricidade.
A necessidade de resfriamento passou a pressionar o sistema elétrico em períodos tradicionalmente associados a outras demandas, reforçando uma tendência que deve se intensificar nas próximas décadas.
Esse movimento ajuda a explicar a crescente importância da refrigeração. No relatório The Future of Cooling (2018), a Agência Internacional de Energia projetou que a demanda global de eletricidade associada ao uso de aparelhos de ar-condicionado poderá mais que triplicar até 2050 caso não ocorram avanços significativos em eficiência energética.
Para atender a esse crescimento, seria necessária uma expansão da capacidade de geração elétrica equivalente à capacidade instalada atualmente nos Estados Unidos, na União Europeia e no Japão somados.
O resfriamento de ambientes já é a fonte de demanda energética que mais cresce nos edifícios em escala global. A consequência é um desafio econômico. Quanto mais quente o clima, maior a necessidade de eletricidade para manter residências, escritórios, hospitais, escolas e centros produtivos funcionando adequadamente.
A adaptação ao calor dependerá de uma infraestrutura energética mais robusta, justamente no momento em que governos buscam reduzir emissões e acelerar a transição para fontes de baixo carbono.
Os efeitos também alcançam o mercado segurador. Eventos extremos mais frequentes elevam perdas indenizáveis e pressionam os modelos de precificação de risco.
Em diversas regiões do mundo, seguradoras já revisam critérios de cobertura para áreas sujeitas a incêndios florestais, enchentes ou calor extremo. O risco climático deixa de ser uma hipótese remota para se tornar uma variável financeira.
A construção civil enfrenta desafio semelhante. Projetos concebidos para as condições climáticas do século passado podem não oferecer o mesmo desempenho nas próximas décadas.
Sombreamento, ventilação natural, arborização urbana e materiais mais adequados ao calor tendem a ganhar relevância econômica, além de ambiental. Construir para um clima que está desaparecendo pode significar criar ativos menos eficientes e mais caros de operar no futuro.
O mercado imobiliário começa a refletir essa mudança. Bairros mais arborizados, com menor impermeabilização do solo e menor exposição a enchentes ou ilhas de calor, podem se tornar mais valorizados.
O conforto térmico passa gradualmente a integrar o conjunto de atributos que influenciam o preço de um imóvel, ao lado de fatores tradicionais como localização, segurança e acesso a serviços. Nem todos os analistas concordam com a magnitude dessas transformações.
Há quem argumente que inovação tecnológica, automação, novos materiais e sistemas mais eficientes de refrigeração poderão reduzir parte dos impactos econômicos previstos. É uma possibilidade real.
Mas mesmo esse cenário exige investimentos crescentes em adaptação, modernização da infraestrutura e ampliação da oferta de energia. Ao longo das últimas décadas, o debate climático concentrou-se principalmente nas emissões.
Agora, uma nova discussão ganha espaço: o custo de operar uma economia mais quente.
A questão já não é apenas quanto o planeta vai aquecer, mas quanto empresas, governos e cidadãos terão de investir para continuar produzindo, transportando, construindo e vivendo sob temperaturas cada vez mais elevadas.



