Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

CNN Brasil Money

Irã: crise eleva cotação do petróleo, mas oferta contém preços

Alta reflete risco logístico e político, não escassez estrutural

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A crise no Irã redistribui ganhos e riscos no mercado global de petróleo: favorece exportadores, pressiona importadores e reacende preocupações inflacionárias. Ainda assim, a oferta abundante limita movimentos estruturais de alta, fazendo do barril do tipo Brent um ativo cada vez mais guiado por prêmio de risco — e não por falta de petróleo.

O Brent iniciou 2025 perto de US$ 82, mas caiu no primeiro semestre com oferta crescente fora da OPEP+ e demanda global fraca, recuando para cerca de US$ 59, com a curva em contango, situação onde contratos com vencimentos mais longos são negociados a preços mais altos do que no mercado à vista.

A alta pontual até US$ 77 no meio do ano passado refletiu apenas prêmio de risco e desconforto fiscal de produtores, sem escassez física. No segundo semestre, a combinação de oferta elevada e consumo moderado levou o barril a fechar o ano próximo de US$ 57, confirmando um mercado bem abastecido.

Esse pano de fundo ajuda a entender o comportamento do Brent em 2026. O consenso de mercado aponta para preços mais contidos no médio prazo, apesar de picos ocasionais de volatilidade. Projeções da Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA) e de grandes bancos apontam preços médios do Brent entre US$ 55 e US$ 60 por barril nos próximos anos.

O cenário reflete a expansão contínua da produção fora da OPEP+ e uma demanda global que avança em ritmo mais moderado do que no início da década. A leitura predominante é que choques geopolíticos tendem a gerar altas rápidas, mas dificilmente sustentáveis, enquanto o balanço físico permanecer confortável.

O principal fator capaz de alterar esse equilíbrio é uma escalada mais aguda no Oriente Médio, em especial envolvendo o Irã. Até agora, a recente alta do Brent para a casa de US$ 65 reflete sobretudo a incorporação de um prêmio de risco, associado a sanções, rotas marítimas e custos de seguro, e não uma interrupção efetiva de oferta.

Em cenários de escalada limitada, o mercado tende a reagir com movimentos rápidos, levando o barril para a faixa de US$ 70 a US$ 75. Já episódios mais graves, envolvendo incidentes recorrentes no Estreito de Ormuz, poderiam empurrar o Brent para patamares de US$ 80 a US$ 90, mesmo em um mercado global bem abastecido.

Um fechamento prolongado do estreito, ainda que de baixa probabilidade, teria efeitos sistêmicos e poderia levar os preços acima de US$ 100, por um choque logístico e por falta imediata de petróleo no mundo.

Nesse contexto, os grandes atores globais tendem a reagir de forma assimétrica. A Rússia se beneficia de um ambiente de tensão controlada, que eleva o Brent via prêmio de risco e reforçaria suas receitas, enquanto a China, maior importadora mundial, tem interesse direto em conter movimentos extremos de alta e preservar a fluidez do mercado, atuando nos bastidores por estabilidade regional.

Em síntese, o cenário-base para o Brent neste ano continua sendo o de um petróleo mais volátil, porém ancorado em fundamentos que limitam altas sustentadas. O mercado segue atento à geopolítica, mas, na ausência de uma ruptura física relevante da oferta ou da logística global, os preços tendem a oscilar mais em função de prêmios de risco do que de escassez estrutural — um ambiente que exige cautela redobrada de investidores, produtores e formuladores de política econômica.

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